Redação Culturize-se
O debate público sobre arquitetura tem se moldado em dicotomias. Clássico versus moderno, belo versus feio, humano versus entediante. O recente ressurgimento da defesa da arquitetura tradicional, impulsionado por figuras políticas como Donald Trump, trouxe à tona uma discussão antiga, mas necessária: o que o público realmente quer dos edifícios que habitam suas cidades? A polêmica reacende um conflito não apenas estético, mas cultural e pedagógico, que desafia tanto a prática profissional quanto o ensino de arquitetura.
Trump tentou “tornar a arquitetura federal grande novamente”, impondo estilos clássicos para prédios públicos e encomendando projetos inspirados em monumentos históricos. Sua iniciativa foi duramente criticada por arquitetos modernistas, mas teve eco popular. Pesquisas nos Estados Unidos e no Reino Unido mostram uma clara preferência pública por edifícios tradicionais. Isso não surpreende. O ser humano tende a se conectar com formas familiares, proporções harmônicas e materiais táteis. No entanto, reduzir essa preferência à nostalgia é simplificar demais um fenômeno complexo. O apego a construções antigas também está ligado a memórias, rotinas e à sensação de pertencimento que certas tipologias urbanas proporcionam.

Nos últimos anos, a academia e o mercado têm sido desafiados a repensar o conceito de “arquitetura entediante”, expressão popularizada por Thomas Heatherwick e sua campanha Humanise, lançada em 2023. A crítica mira uma produção excessivamente homogênea — fachadas de vidro repetitivas, torres genéricas, espaços sem identidade — que transformaram o urbanismo global em uma colagem de não-lugares. O problema não é o modernismo em si, mas o modernismo mal interpretado, esvaziado de suas intenções humanistas originais. Arquitetos como Alvar Aalto e Louis Kahn mostraram que é possível conciliar racionalidade e emoção, forma e experiência, sem recorrer à ornamentação historicista.
A neuroarquitetura, campo que ganha força na academia, ajuda a explicar o impacto desses espaços. Estudos indicam que ambientes visuais pobres, sem variação ou textura, elevam os níveis de estresse e reduzem a sensação de bem-estar. A arquiteta e crítica Sarah Williams Goldhagen, apoiada em evidências neurocientíficas, observa que edifícios que estimulam a percepção sensorial, com luz natural, cores e diversidade formal, criam vínculos emocionais mais fortes com seus usuários. Isso explica, em parte, por que tantos consideram os edifícios antigos mais “agradáveis”: eles foram projetados com atenção à escala humana e à experiência cotidiana, qualidades muitas vezes negligenciadas pelo funcionalismo contemporâneo.
A academia, antes resistente a esse tipo de questionamento popular, começa a reagir. Escolas de arquitetura vêm reavaliando currículos excessivamente teóricos e abstratos, incorporando disciplinas de percepção espacial, psicologia ambiental e envolvimento comunitário. Estúdios acadêmicos buscam aproximar alunos das realidades locais, incentivando projetos que respondam a contextos culturais e climáticos específicos. O foco se desloca da originalidade formal para a empatia projetual. Uma mudança sutil, porém transformadora. Afinal, como lembra o arquiteto britânico Ben Pentreath, “as pessoas querem lugares bem projetados que funcionem bem”.

O desafio, portanto, não está em escolher entre colunas dóricas e fachadas de concreto, mas em compreender por que o público sente-se alienado por grande parte da produção recente. A percepção de que a arquitetura contemporânea é “fria” ou “distante” reflete, em grande medida, uma crise de comunicação entre arquitetos e sociedade. Enquanto o discurso acadêmico se volta para o conceito e a inovação, o cidadão comum busca significado, beleza e acolhimento. É papel do arquiteto reconciliar essas dimensões.
A arquitetura tradicional, com sua riqueza sensorial e simbólica, ainda oferece lições valiosas sobre permanência e identidade. Mas o caminho não está em rejeitar o novo, e sim em recuperar a capacidade de projetar com humanidade. Uma arquitetura moderna pode ser calorosa, sensível e memorável; uma clássica pode ser fria e vazia. O essencial é que ambas contem histórias que dialoguem com quem as habita. No fim, o que o público deseja — e o que a academia começa a reconhecer — é simples. Não edifícios “clássicos” ou “modernos”, mas espaços que despertem emoção, conexão e pertencimento. E isso, em qualquer estilo, é o verdadeiro antídoto contra a arquitetura entediante.