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Com 2ª temporada irregular, "Landman" se reabilita no episódio final

Por Reinaldo Glioche

“Landman”, de Taylor Sheridan, nunca foi uma série tímida, mas o final da segunda temporada cristaliza algo ainda mais volátil: a disposição da produção em provocar, polarizar e, em seguida, puxar o tapete sob o próprio caos que cria. A reação ao penúltimo episódio — impulsionada pela demissão abrupta de Tommy Norris e por um ato chocante de violência — revelou o quanto o público está profundamente investido nessa parábola moral ambientada no oeste do Texas. Por um breve momento, espectadores chegaram a cogitar a existência de uma terceira temporada sem Billy Bob Thornton. Só isso já diz muito sobre a força do gancho. O episódio final, no entanto, deixa claro quase de imediato: essa história jamais abandonaria seu centro de gravidade falho e explosivo.

O capítulo começa restabelecendo o equilíbrio narrativo. Tommy lembra a todos, de forma calma e cirúrgica, que os poços ligados a seu filho Cooper nunca foram legalmente incorporados à M-Tex. “Cami não negociou isso. Eu negociei”, afirma, reafirmando sua autoridade não por bravata, mas por memória institucional. Em uma única frase, Sheridan reformula a demissão não como um fim, mas como alavancagem. A teoria dos fãs de que Tommy seguiria por conta própria — possivelmente com o capital diabólico de Danny Morrell (Andy Garcia) — passa a soar menos especulativa e mais inevitável.

Em paralelo a esse xadrez corporativo está a trama mais controversa da temporada: a tentativa de agressão sexual contra Ariana e as consequências legais que recaem sobre Cooper por tê-la impedido. As cenas na delegacia são deliberadamente revoltantes, retratando um sistema mais interessado em punir o uso excessivo da força do que em investigar a violência contra mulheres. A política de Sheridan costuma ser direta, às vezes confusa, mas aqui sua crítica atinge o alvo com clareza sombria. A lei, tal como aplicada, protege a autoridade com mais prontidão do que as vítimas. Quando Tommy explode e pergunta: “A gente está do lado de um estuprador?”, a frase soa menos como diálogo e mais como uma acusação lançada diretamente ao espectador.

O que complica esse arco é a dependência recorrente de Sheridan do trauma como combustível narrativo. A série já foi criticada pela frequência com que mulheres são colocadas em situações de risco e, embora o final tente contextualizar a agressão sofrida por Ariana dentro de uma crítica mais ampla ao policiamento e às leis de legítima defesa, o desconforto persiste. O argumento é claro — e até convincente —, mas o custo de contá-lo segue em aberto. Sheridan privilegia uma moralidade de “bom senso” em detrimento da lógica institucional, e “Landman” mais uma vez traça uma linha dura: valorize a vida ou perca qualquer posição moral.

Se o final fosse apenas sobre indignação e resolução, soaria mecânico. Em vez disso, seu lastro emocional vem de um lugar inesperado: T.L., vivido por Sam Elliott, cuja presença silenciosa redefiniu a temporada. Introduzido observando o pôr do sol enquanto “espera a morte”, T.L. encarna a perspectiva de longo prazo — o custo de uma vida dedicada ao trabalho, à fuga do luto e à confusão entre resistência e virtude. Elliott o interpreta não como uma relíquia, mas como um acerto de contas. Cada tremor na voz, cada passo vacilante, carrega o peso de escolhas que Tommy ainda está fazendo.

O arco de T.L. é uma das conquistas mais humanas de Sheridan. Por meio de cenas domésticas com Angela e Ainsley, de uma ternura disfarçada por palavrões, ele se torna um aviso vivo. “Você tem tudo, filho, mas é burro demais para perceber”, diz a Tommy, condensando a filosofia da série em um sermão à mesa de um restaurante à beira de estrada. É graças à franqueza de T.L. — e à gravidade acumulada de Elliott — que Tommy consegue, afinal, algum movimento emocional. A reconciliação com Angela, o reconhecimento do amor e até a recusa final em entregar o dia a Deus – e ao coiote – derivam diretamente da influência do pai.

O episódio também avança em um vespeiro que foi muito criticado no espiósio anterior envolvendo Paigyn, colega de quarto não binária de Ainsley. Inicialmente apresentada como uma caricatura que flertava com a paródia reacionária, Paigyn ganha aqui uma medida de dignidade. A reaproximação com Ainsley — baseada em interesses comuns, defesa mútua e gentileza pragmática — suaviza os danos anteriores. É mais uma sinalização de que Sheridan compreende que a complexidade, e não o escárnio, sustenta um personagem.

A saída rápida de Cami Miller (Demi Moore) reforça outra verdade recorrente de “Landman”: poder sem conhecimento é teatral, não operacional. A personagem de Demi Moore percebe tarde demais que confiança não substitui expertise. A demissão do advogado e sua avaliação direta — a empresa foi criada para ser vendida, não administrada — expõem a fragilidade da autoridade herdada. Em contraste, o novo empreendimento de Tommy com Danny Morrell soa merecido, ainda que ameaçador. Quando Danny avisa que a falta de resultados custará a Tommy “a coisa que você mais ama”, a parceria é apresentada menos como triunfo e mais como uma necessidade faustiana.

Essa tensão se estende ao movimento final da série: a criação da CTT Oil Exploration & Cattle. O modelo de divisão de lucros de Tommy, radical para os padrões da indústria, reposiciona “Landman” como algo mais aspiracional do que cínico. Cooper como presidente, trabalhadores participando dos lucros, Ariana à frente do escritório — trata-se de uma visão de capitalismo com limites, imaginada por um homem que finalmente encarou o pôr do sol e decidiu viver. Se a série conseguirá sustentar esse idealismo em uma terceira temporada é uma incógnita.

Fotos: divulgação

De muitas formas, o final do 2º ano poderia funcionar como um encerramento. Pontas são amarradas, estruturas de poder redefinidas e arcos emocionais resolvidos. Ainda assim, “Landman” sempre prosperou no atrito, e seu maior risco daqui para frente é a diluição — reiniciar apostas em vez de aprofundá-las. Um caminho flertado nesse 2º ano. Assim como a indústria do petróleo que dramatiza, a série é eletrizante quando atinge algo real e profundamente frustrante quando perfura além do veio.

O que mais permanece, porém, é o último presente de Elliott à série: o pôr do sol como metáfora. Não um fim, mas um lembrete de que o tempo é finito, as escolhas se acumulam e a clareza muitas vezes chega tarde demais. “Landman” pode tropeçar, provocar e exagerar, mas quando acerta, captura algo inconfundivelmente humano. E, por enquanto, ao menos, o dia ainda pertence a Tommy Norris.

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