Por Reinaldo Glioche
O ano de 2025 chega ao fim com um saldo muito positivo. Do começo pautado por filmes de Oscar, como “Anora” e “O Brutalista”, ao final incensado por longas tão criativos, emocionais e bonitos como “Sonhos de Trem”, “Jay Kelly” e “Valor Sentimental”.
Ao invés de uma lista tradicional, ela já foi, com a devida vênia, configurada na edição 111 da newsletter Culturize-se Selection, a ideia aqui é dissertar sobre os filmes que rechearam 2025. Que fizeram do ano, algo geracional cinematograficamente falando.
No ano em que o Brasil finalmente ganhou o Oscar, com “Ainda Estou Aqui”, o cinema nacional mostrou mais uma vez sua multiplicidade com ótimos longas como “Oeste Outra Vez”, “Manas” e o badalado “O Agente Secreto”, que vai tentar o bi para o Brasil depois de ter ganhado dois prêmios em Cannes.
A música brasileira mais uma vez se fez presente em um filme do italiano Luca Guadagnino e em um momento-chave de “Depois da Caçada”, filme que radiografa com precisão e altivez o estado da cultura contemporânea colocando uma lupa nas microagressões e no embate geracional entre millenials e a geração Z.
O mal-estar cultural também foi capturado em filmes como “Bugonia”, em que Yorgos Lanthimos faz um comentário pessimista sobre a humanidade a partir do embate entre um sujeito chegado em teorias conspiratórias e uma CEO que ele sequestrou pensando ser ela uma alienígena. Já em “Sonhos”, Michel Franco usa uma relação amorosa conturbada entre um mexicano pobre e uma americana rica como alegoria para a relação conflituosa e desequilibrada entre os EUA e a América Latina.
Em “Casa de Dinamite”, que marcou o retorno de Kathryn Bigelow a seu cinema-jornalismo depois de oito anos, a ideia de um ataque nuclear é trabalhada com formalismo e tensão ininterrupta. Bigelow demonstra o quão despreparados estamos para lidar com as crises que lidamos enquanto sociedade, a partir de um exercício simples de imaginar como seria a iminência de um ataque nuclear.
Se “Luta de Classes” não é o melhor de Spike Lee, ainda se prova relevante nesse contexto por expor a antropofagia social de nossos tempos, assim como em “Bugonia”, a partir de um sequestro. Já Paul Thomas Anderson abraçou o cinema político, mas sem perder de vista os afetos, em “Uma Batalha Atrás da Outra”. A moral da história? É preciso seguir em frente.








Relações afetivas
O cinema foi prolífero na desconstrução de relações afetivas. No olhar clínico para o espaço que elas ocupam em nossas vidas e, ainda, como elas se organizam a partir de impulsos como insegurança, tédio, etc. Nesse escopo, filmes como “Amores Materialistas”, “Amores à Parte”, “Entre Nós: Uma Dose Extra de Amor” e “Entre Duas Mulheres” se distinguem por tecer um painel rico e multifacetado a respeito de como os afetos se constituem, se dissipam e nos afetam nos tempos atuais.
Entre romance e desejo, esses filmes articulam com inteligência os labirintos que atravessamos em busca de resultados e objetivos nem sempre alcançados.
Esse cinema de sensibilidade também pôde ser observado em produções como “Frankenstein”, de Guillermo Del Toro, “O Bom Bandido”, de Derek Ciafrance e “Sonhos de Trem”, de Clint Bentley. Três estudos diferentes, mas complementares, sobre os ruídos da solidão. No primeiro, a intercorrência existencial entre criador e criatura; no segundo, a busca desastrada e permanente por conexão; e no terceiro, a beleza e tristeza da vida ordinária à sombra do luto.
Por falar em luto, Danny Boyle voltou ao universo por ele lançado em 2002 com “Extermínio” para teorizar sobre luto coletivo e como as relações afetivas são afetadas diante de circunstâncias hostis. “Extermínio: A Evolução” é um filme sobre a opacidade da morte em contraposição à vontade de viver.
Cinemão do bom
Se a Marvel continuou sua espiral de decadência, Hollywood mostrou criatividade com produções originais e potentes como “Pecadores” e “A Hora do Mal”, duas produções de gênero da Warner que encantaram público e crítica com merecimento. A Apple tornou a Fórmula 1 sexy novamente com “F1 – O Filme”, que fez Brad Pitt roubar a cena do verão americano do compadre Tom Cruise no decepcionante ato final de sua bem-sucedida franquia “Missão: Impossível”.
Darren Aronofsky saiu totalmente de sua zona de conforto no irresistível e charmoso thriller com cara dos anos 90 – e ambientado nos anos 90 – “Ladrões”, que provou mais uma vez (para quem ainda tinha dúvida) que Austin Butler é um astro.
O grande destaque no cinemão, porém, recai sobre Dan Tratchenberg, que ofertou dois ótimos filmes do Predador no ano. “Assassino de Assassinos”, lançado no primeiro semestre no Disney+, e “Terras Selvagens”, que aportou nos cinemas em novembro.
Um ano de grandes finais
A começar por “O Brutalista” e “Anora”, os dois filmes mais premiados do último Oscar, o ano apresentou filmes com grandes finais, que potencializaram os efeitos dramáticos pretendidos. “Jay Kelly” e “Valor Sentimental”, dois filmes que se debruçam sobre o cinema, para tangenciar arrependimentos diversos e o esforço da arte como reparação, são dois bons exemplos. Mas não são os únicos. O vencedor da Palma de Ouro, “Foi apenas um Acidente” ofertou o final mais desconcertante de 2025. A comédia de humor negro (ou humor sombrio para piscar para a correção política) “Os Roses” também soube quebrar as expectativas da audiência com um desfecho anticlimático. “Bugonia”, olha ele aqui de novo, ressignificou-se totalmente a partir de seu final.
Parece oportuno evocar esses excelentes filmes para finalizar 2025 no Culturize-se. São filmes que mimetizam um ano em que o cinema fundamentou-se no que tem de melhor e contemplou a cinefilia com beleza, sentido e propósito.