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O cinema, os afetos e as oportunidades perdidas

Reinaldo Glioche

Dois filmes lançados em dezembro no Brasil, e que certamente integrarão o próximo Oscar, compõem um olhar para lá de interessante sobre o cinema, como arte, tateabilidade dos afetos e cápsula do tempo.

Existe a percepção, principalmente na cinefilia, que filmes podem mudar vidas; que o cinema, como a arte em recorte mais generalista, pode ser reparador. O pretérito poderia ser reconfigurado por uma catarse costurada a partir de dores e renúncias. É uma ideia muito bonita, por certo. Mas que “Jay Kelly”, de Noah Baumbach, disponível na Netflix, e “Valor Sentimental”, de Joachin Trier, em cartaz nos cinemas, cuidam de relativizar.

No primeiro, George Clooney vive um astro de cinema confrontado com suas escolhas, que implicaram no afastamento de suas filhas e numa vida excessivamente dedicada à figura de celebridade. Não à toa, o filme abre com o aforismo de Silva Plath (It´s a hell of a thing being yourself. It´s much easier to be someone else or nobody at all). É um vaticínio que pesa toneladas sobre os ombros de Kelly, que em um desses surtos de celebridade, resolve abandonar um filme para perseguir sua filha mais nova na Europa, a quem ainda alimenta alguma esperança de convivência.

“Jay Kelly” é menos sobre o cinema e mais sobre esse personagem. Sobre arrependimentos. Sobre como abrimos mão de viver pela “promessa de viver”. O quê? É, também, sobre o vazio da fama. É muito potente que George Clooney viva Jay Kelly. Em um dado momento, uma personagem pergunta como ele se sente quando o acusam de só viver ele mesmo (algo recorrente na carreira de Clooney). No que ele responde: “você sabe o quanto é difícil ser você mesmo?!”.

Essa fratura íntima também afeta os personagens de “Valor Sentimental”, novo petardo do diretor de “A Pior Pessoa do Mundo”, aqui em sua terceira colaboração com a atriz Renate Reinsve. O filme gira em torno de Gustav Borg (Stellan Skarsgärd), um cineasta de prestígio, agora em declínio, que ausentou-se da vida das filhas após o divórcio e que agora, na esteira da morte da ex-mulher, ensaia uma reaproximação. Nora (Reinsve) é uma atriz de teatro com crise de pânico e totalmente refratária à figura do pai. Ele, porém, escreveu um filme para ela protagonizar. É um gesto, no entendimento dele, de afeto, de compreensão. Ela recusa. Há, ainda, Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), a irmã mais nova que também carrega suas mágoas, mas parece sufocada pelas demandas do pai e da irmã.

A arte em “Valor Sentimental” é tanto propósito como expiação, mas parece insuficiente. Nesse escopo surge a atriz americana Rachel Kemp, fã do trabalho de Gustav e que assume o papel oferecido a Nora, viabilizando o projeto financeiramente. Ela, com o tempo, começa a se questionar a respeito de sua presença no projeto. Ela intui que ele é pessoal demais, intrínseco àquele ecossistema afetivo ao qual ela parece incapaz de acessar. Ela está certa.

Gustav não consegue trabalhar seus afetos por outro meio que não seus personagens. É de uma solidão acachapante. As reminiscências dessa dificuldade aos poucos são descortinadas em suas filhas.

Os cineastas Joachin Trier e Noah Baumbach conversam durante o último Festival de Nova York | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Em uma conversa ao telefone com sua filha mais velha, momentos antes de receber um tributo pela carreira na Itália, Jay Kelly faz um último apelo para que sua filha, vivida por Riley Keough, se junte a ele. “São 35 anos da minha vida. Tem que ter significado algo”. Ela devolve: ” e se não significou?”.

Essa angústia aproxima “Jay Kelly” de “Valor Sentimental”. São filmes que mergulham em dores difíceis de nomear, em afetos suspensos e em tentativas de reparo desastradas. São filmes que enxergam a arte como um desejo deformado de reconciliação, como promessas imperfeitas de futuro.

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