Por Reinaldo Glioche
O aguardado novo filme do Superman, que chega aos cinemas do mundo neste fim de semana, está gerando muito mais do que burburinho nas bilheterias. A representação do Homem de Aço, interpretado por David Corenswet, como um refugiado ensanguentado e ferido em um deserto ártico logo no início da trama, tem acendido um intenso debate cultural e político nos Estados Unidos, especialmente entre comentaristas conservadores que acusam o filme de ser “woke” e de politizar desnecessariamente o icônico super-herói.
Para o diretor James Gunn, que também é copresidente da DC Studios, a imagem de um Superman agredido simboliza os Estados Unidos – um país que, mesmo em estado deplorável, “ainda apoia o bem”. No entanto, a grande mudança de foco neste novo reboot é a transição do “excepcionalismo americano” para a “moralidade universal”. Em vez de ser apenas um herói nacional, o Superman de Gunn visa proteger e salvar os fracos ao redor do mundo, “mesmo que isso o coloque em apuros”.
Gunn, conhecido por dirigir a franquia “Guardiões da Galáxia” na Marvel antes de migrar para a DC, não se esquivou de reconhecer a dimensão política de seu filme. Em entrevista ao jornal britânico The Times, ele afirmou: “Sim, é sobre política”, mas rapidamente adicionou que também é “sobre a bondade humana”. Suas declarações, no entanto, foram o suficiente para provocar a ira de comentaristas políticos de direita, que interpretaram essa abordagem como uma tentativa de transformar o super-herói em uma figura “woke” – termo usado para descrever alguém com uma consciência elevada sobre discriminação racial e sexual, desigualdade social e temas afins.
A reação conservadora

A indignação, que começou a borbulhar mesmo antes de muitos críticos terem visto o filme, é alimentada pela percepção de que Hollywood estaria incessantemente impondo uma agenda liberal. A apresentadora da Fox News, Kellyanne Conway, ex-assessora de Donald Trump, exemplificou essa frustração ao reclamar no talk show The Five: “Não vamos ao cinema para receber sermões e para que alguém nos imponha sua ideologia. Me pergunto se [o filme] vai fazer sucesso.” Essa crítica reflete uma preocupação generalizada de que o entretenimento estaria sendo usado como um veículo para doutrinação ideológica.
A Fox News, de forma ainda mais contundente, rotulou o filme de “Superwoke” em um segmento, com um banner que anunciava: “Filme de herói icônico abraça temas pró-imigração”. O apresentador Jessie Watters chegou a fazer uma piada irônica e de mau gosto: “Sabe o que está escrito na capa dele? MS-13”, em referência a uma gangue criminosa internacional que a administração Trump dizia combater em suas operações de imigração. Outro apresentador da Fox, Greg Gutfeld, acusou Gunn de tentar criar um “fosso de opinião lacradora e iluminada ao seu redor”.
Essa polarização não é exclusiva do novo “Superman”. Anteriormente, fãs ameaçaram boicotar “Capitão América: Admirável Mundo Novo” por comentários de Anthony Mackie, o primeiro homem negro a interpretar o Capitão América, sobre a identidade do super-herói. A teoria popular entre os fãs é que os universos cinematográficos da DC e da Marvel Comics estão se polarizando ao longo das linhas ideológicas da guerra cultural americana, com o universo DC (Superman, Batman) sendo visto como mais conservador e autoritário, e o universo Marvel (Vingadores) como mais liberal e democrático.
O cerne da controvérsia, no entanto, reside naquilo que muitos consideram uma cegueira seletiva por parte dos críticos. O fato de o Superman ser um imigrante/refugiado não é uma invenção de James Gunn para provocar o público “anti-woke”, mas sim um elemento fundacional de sua história de origem, estabelecido em 1938 por seus criadores, os imigrantes judeus de segunda geração Jerry Siegel e Joe Shuster. Eles conceberam um super-herói que defendia os mais fracos em resposta à ascensão do nazismo e ao antissemitismo na Europa.
Nascido como Kal-El no planeta Krypton, o bebê Superman é enviado para a Terra por seus pais biológicos momentos antes da destruição de seu mundo. A família que o acolhe, os Kents, o registra fraudulentamente como seu filho biológico, Clark Kent, para esconder o fato de que a criança é, literalmente, um “alienígena não documentado”. Esse aspecto de sua biografia foi inclusive reiterado em 2018 pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) no livro “Superman também foi um refugiado”.
Além disso, os quadrinhos do Superman têm uma longa história de engajamento político. Em 1946, o Homem de Aço lutou contra a Ku Klux Klan em uma transmissão de rádio. Mais recentemente, em 2017, ele protegeu um grupo de imigrantes sem documentos de um supremacista branco armado na edição nº 987 da Action Comics, lançada após Trump anunciar o fim da política DACA (Ação Diferida para Chegadas na Infância). O próprio Clark Kent, na série de TV “Smallville” (2001-2011), confronta sua mãe sobre o ato de abrigar um imigrante ilegal, lembrando-a de que ele próprio é um “imigrante ilegal” que ela abrigou por 17 anos.
O desafio da Warner Bros.
O lançamento de “Superman” é um momento crucial para a Warner Bros., que tem muito em jogo financeiramente, com um orçamento relatado de US$ 363,8 milhões. Além disso, o estúdio opera em um ambiente político superaquecido, com a pressão de Donald Trump sobre as organizações de mídia e suas acusações de viés político.

James Gunn, no tapete vermelho da premiere do filme em Los Angeles, foi direto ao responder às críticas, dizendo à Variety que não tinha “nada a dizer a ninguém” que estivesse espalhando negatividade.
No fim das contas, a controvérsia em torno do novo “Superman” transcende a mera discussão sobre um filme de super-herói. Ela se insere em um debate mais amplo sobre os valores que definem uma nação e sua cultura. A insistência de James Gunn na “bondade humana” como tema central, em um momento em que as pessoas “estão sentindo uma perda de esperança na bondade dos outros” e há uma “maldade que emergiu devido a figuras culturais sendo cruéis online”, ressoa profundamente em um cenário de divisões sociais e políticas intensificadas.
A recusa dos críticos conservadores em reconhecer a herança imigrante do Superman, apesar de estar em sua gênese desde 1938, sugere uma tentativa de reescrever a narrativa de um ícone cultural para se alinhar a uma agenda política específica. A história do Superman, desde o início, sempre foi sobre a defesa dos oprimidos e a luta contra a corrupção e os poderosos – um arquétipo que, ironicamente, parece se chocar com as visões daqueles que agora o acusam de ser “woke”.
A recepção inicial do filme tem sido positiva, com avaliações “Fresh” no Rotten Tomatoes. Resta saber se o debate polarizado irá ofuscar o sucesso comercial e artístico da produção ou se, como muitos fãs e criadores argumentam, a essência do Superman – a de um “campeão dos oprimidos” e um símbolo de esperança para todos – prevalecerá sobre as tentativas de confiná-lo a uma ideologia política restrita.