Redação Culturize-se
A inteligência artificial, frequentemente celebrada como motor de inovação tecnológica, tem um lado invisível que envolve exploração, desigualdade e danos ambientais. Essa é a tese central de “Atlas da IA: Poder, política e os custos planetários da inteligência artificial“, recém-lançado pelas Edições Sesc São Paulo. Na obra, a pesquisadora australiana Kate Crawford revela as engrenagens por trás da “nuvem” digital e alerta para os riscos de um desenvolvimento tecnológico sem limites.
Resultado de uma década de pesquisas em laboratórios, minas de extração mineral, centros de dados e zonas de conflito, o livro reúne jornalismo investigativo e rigor acadêmico. A autora demonstra como a IA depende de uma infraestrutura material pesada, que começa na mineração de terras raras na Mongólia Interior e no estanho da Indonésia, e termina em data centers que consomem enormes quantidades de energia. Para Crawford, a inteligência artificial está assentada sobre um modelo de exploração socioambiental que raramente é discutido.
Outro aspecto abordado é o trabalho invisível de milhares de pessoas no Sul Global, responsáveis por treinar sistemas de IA em plataformas como ImageNet e Amazon Mechanical Turk. Esses trabalhadores, muitas vezes em condições precárias, alimentam algoritmos de reconhecimento facial e moderação de conteúdo, sem qualquer reconhecimento público ou proteção.
O livro também denuncia como os sistemas algorítmicos reproduzem e intensificam preconceitos, atingindo de forma desproporcional mulheres, pessoas negras e comunidades marginalizadas. Nesse sentido, Crawford questiona não apenas a neutralidade da IA, mas também os interesses econômicos e políticos que moldam seu uso.

A pesquisadora propõe uma reflexão urgente sobre os limites éticos e sociais da tecnologia, defendendo regulação mais robusta, participação democrática no debate e políticas públicas que enfrentem o poder concentrado das big techs. “Não basta adicionar ‘ética’ como um adorno à IA. É preciso transformar as estruturas que a sustentam”, afirma.
Mais do que um diagnóstico, “Atlas da IA” funciona como um convite à ação: repensar o futuro digital sob a ótica da justiça social, da transparência e da sustentabilidade ambiental. Eleito um dos melhores livros do ano pelo Financial Times e traduzido para 12 idiomas, o título reforça a posição de Kate Crawford como uma das principais vozes críticas no debate global sobre tecnologia.