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Anne Carson, a poeta que reinventou os clássicos, vence o Nobel de Literatura 2026

Redação Culturize-se

A poeta, ensaísta e tradutora canadense Anne Carson, de 76 anos, é a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2026. O anúncio foi feito na manhã desta quinta-feira (8), em Estocolmo, pela Academia Sueca, responsável pela concessão da láurea. Segundo a instituição, a escritora foi escolhida por uma obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea.

Carson, que está na Islândia, reagiu com bom humor à notícia. Em entrevista à emissora pública islandesa RÚV, pouco depois do anúncio, brincou que os integrantes da Academia são “loucos” por tê-la escolhido. A secretária permanente da Academia, Ingrid Carlberg, contou ter telefonado para a autora minutos antes da divulgação. Segundo ela, Carson foi pega de surpresa, mas ficou muito feliz, o que pôde perceber pela voz.

O Nobel é concedido pelo conjunto da obra e é considerado a distinção mais prestigiosa da literatura mundial. O vencedor recebe 12 milhões de coroas suecas, o equivalente a cerca de R$ 6 milhões na cotação atual.

Entre a filologia e a poesia

Nascida em Toronto, em 1950, Carson vive em Michigan, nos Estados Unidos, e tem cidadania islandesa desde 2022. Formada em Estudos Clássicos, publicou em 1981 sua tese de doutorado, intitulada “Odi et Amo Ergo Sum”. Desde então, combinou a escrita de poesia com a tradução de textos da Grécia Antiga e com a docência universitária, atuando como professora de estudos clássicos por mais de 30 anos.

A própria autora já apontou a etimologia das palavras como ponto de partida de todo o seu trabalho. Esse olhar de filóloga atravessa livros que borram as fronteiras entre poesia, ficção, ensaio e erudição acadêmica. Suas traduções, por sua vez, costumam dar abordagem contemporânea a obras antigas.

O livro mais celebrado de Carson é “Autobiography of Red: A Novel in Verse”, de 1998. A partir de fragmentos do poeta grego Estesícoro, que viveu entre os séculos 7 e 6 a.C., ela recria o mito de Gerião, o monstro vermelho e alado que Héracles precisou exterminar como um de seus doze trabalhos. Na versão da autora, Gerião vira um menino sensível e absorto, e a história acompanha seu tempestuoso relacionamento amoroso com o herói. O resultado é um romance em versos que funde ensaio, crítica e ficção, com um olhar preciso para os modos de falar e as experiências atuais.

Ao longo da carreira, Carson também explorou, com leveza, as possibilidades formais da escrita. Em “Float” (2016), reuniu 22 pequenos livros sobre temas distintos, que podem ser lidos em qualquer ordem. Em “Wrong Norma” (2024), combinou textos de forte caráter performático, transitando por diferentes campos artísticos e acadêmicos.

Foto: Reprodução/Redes Sociais

A Academia destacou ainda as colaborações da autora com artistas visuais, coreógrafos e diretores de ópera e teatro. Para a instituição, elas mostram a liberdade com que Carson lida com as expectativas literárias e com os sistemas de regras, o que fundamenta a importância excepcional de sua obra, desde a década de 1990, para o cenário internacional das artes e da literatura.

Carson no Brasil

A escritora tem oito livros publicados no país, a partir de 2017, quando a Edições Jabuticaba lançou “O método Albertine”. A obra revisita “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust, por meio da personagem Albertine, misturando ensaio, crítica, tradução e poesia.

A Editora 34 publicou “Autobiografia do vermelho” em 2021, com tradução de Ismar Tirelli Neto, e “Sobre aquilo em que eu mais penso” em 2023. A segunda é uma coletânea de 11 ensaios, organizada por Sofia Nestrovski e Danilo Hora, que aproxima autores aparentemente distantes, como Virginia Woolf e Tucídides, ou Homero e Elizabeth Bishop.

A Bazar do Tempo é responsável por três títulos. “Eros, o doce-amargo”, de 2022, é o primeiro livro de crítica literária da autora, derivado de sua tese, e investiga o desejo amoroso a partir da Grécia Antiga e de um verso de Safo. “A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos”, de 2024, narra o fim de um casamento em 29 partes. Já “Antigonick”, lançado em 2026, é uma tradução livre e experimental da tragédia “Antígona”, de Sófocles, com comentários bem-humorados intercalados ao texto.

Pela Relicário Edições, chegaram “Falas curtas”, de 2022, edição bilíngue de poemas em prosa que misturam memória, história e ficção, e “Vidro, ironia e deus”, de 2026. Este reúne cinco poemas longos e um ensaio sobre amor, perda, identidade, alienação e a tentativa de compreender o sagrado e o profano. Entre os destaques estão “O ensaio de vidro”, sobre o fim de um amor em diálogo com Emily Brontë, e o ensaio “O gênero do som”, que traça a construção da voz segundo os gêneros na cultura ocidental.

Os números do Nobel de Literatura

Foto: Reprodução/Redes Sociais

Desde 1901, o prêmio teve 123 laureados em 119 premiações, já que em quatro delas dois nomes dividiram o título no mesmo ano. Ninguém foi premiado mais de uma vez. Não houve cerimônia em sete ocasiões: 1914, 1918, 1935, 1940, 1941, 1942 e 1943.

O mais jovem vencedor foi Rudyard Kipling, que tinha 41 anos quando foi nomeado, em 1907. A mais velha foi Doris Lessing, premiada em 2007, aos 87 anos. Com Carson, 19 mulheres já receberam o Nobel de Literatura, número bem inferior ao de homens. Duas pessoas declinaram da honraria: Boris Pasternak, em 1958, obrigado pelas autoridades de seu país, e Jean-Paul Sartre, em 1964, que historicamente recusava homenagens oficiais.

No ano passado, o vencedor foi o húngaro László Krasznahorkai, autor de romances exigentes e distópicos, como “Sátántangó” e “Melancolia da resistência”. Antes dele, foram premiados Han Kang (Coreia do Sul, 2024), Jon Fosse (Noruega, 2023), Annie Ernaux (França, 2022) e Abdulrazak Gurnah (Tanzânia, 2021). Na lista de mulheres laureadas, Carson se junta a nomes como Toni Morrison, Alice Munro, Olga Tokarczuk e Gabriela Mistral, a primeira a receber o prêmio na América Latina, em 1945.

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