Redação Culturize-se
A Nike planeja lançar um tênis que rapidamente se tornou foco de controvérsia nos Estados Unidos. A edição especial “Honor the King”, do modelo LeBron XXIII, faz referência direta ao Lorraine Motel, em Memphis, local onde Martin Luther King Jr. foi assassinado em 1968. A homenagem, anunciada na semana seguinte ao feriado federal dedicado ao líder dos direitos civis, reacendeu o debate sobre os limites entre memória histórica, marketing e apropriação simbólica.
O elemento mais sensível do lançamento é a paleta de cores. O tom azul-turquesa do tênis remete ao exterior do Lorraine Motel, hoje sede do Museu Nacional dos Direitos Civis. LeBron James, astro da NBA e parceiro histórico da Nike, estreou o calçado em quadra no dia 2 de janeiro, durante uma partida do Los Angeles Lakers contra o Memphis Grizzlies. Segundo a empresa, o modelo integra uma série comemorativa pelos 23 anos de carreira de James na liga.
A reação negativa, porém, foi quase imediata após a divulgação das imagens nas redes sociais. Para parte do público, a associação estética ao local do assassinato de King transforma uma tragédia histórica em objeto de consumo. John Jowers, vice-presidente de comunicações da Nike, reconheceu o caráter sensível da escolha. “Design é subjetivo, e isso se torna ainda mais carregado quando envolve princípios maiores”, afirmou. Segundo ele, a intenção da empresa foi prestar homenagem à vida e ao legado de King, não explorar sua morte.
Não é a primeira vez que a Nike recorre à história negra como inspiração. A marca já lançou uniformes em homenagem a Martin Luther King Jr. e edições especiais com mensagens de igualdade durante o Mês da História Negra. A diferença, neste caso, é a referência explícita ao episódio mais traumático da trajetória do líder dos direitos civis, algo inédito nas iniciativas anteriores da empresa.

Para críticos como o fotógrafo e entusiasta de sneakers Randy Singleton, o problema está justamente aí. “De todas as formas de homenagear o Dr. King, escolher o lugar onde sua vida foi tirada é ultrajante”, afirmou. A pergunta que ecoa entre colecionadores e ativistas é direta: para quem esse tênis foi feito?
O Museu Nacional dos Direitos Civis afirmou que não participou do desenvolvimento nem do lançamento do produto. Embora a Nike seja uma doadora de longa data da instituição, o presidente do museu, Russell Wigginton, disse que soube do tênis apenas dias antes de sua divulgação pública. Para ele, o episódio ocorre em um momento delicado da história americana, marcado por retrocessos simbólicos e institucionais.
A controvérsia evidencia uma tensão recorrente na cultura contemporânea: como homenagear figuras históricas sem transformar dor coletiva em mercadoria. No caso da Nike, a resposta do público sugere que, quando memória e mercado se encontram, a linha entre tributo e transgressão pode ser tênue demais.