Reinaldo Glioche
A Netflix está aprofundando de forma calculada sua incursão em inteligência artificial e faz isso com Ben Affleck como parceiro e rosto público da iniciativa.
A gigante do streaming adquiriu a InterPositive, empresa de tecnologia para cinema movida por IA fundada discretamente por Affleck em 2022. A transação não é um acordo tradicional de produção ou distribuição, mas sim uma aquisição estratégica de tecnologia. Como parte do acordo, Affleck assumirá o cargo de conselheiro sênior na Netflix, e toda a equipe da InterPositive será incorporada à companhia. Os termos financeiros não foram divulgados.
O movimento sinaliza a intenção da Netflix de se posicionar não apenas como distribuidora de conteúdo assistido por IA, mas como desenvolvedora de infraestrutura de inteligência artificial centrada nos cineastas. Em comunicado divulgado pela empresa, Affleck enquadrou a decisão como um compromisso de proteger o trabalho criativo e não de substituí-lo.
“Eu sabia que tinha uma responsabilidade com meus colegas e com nossa indústria, de proteger o poder da criatividade humana e as pessoas por trás dela”, escreveu. Ele descreveu a InterPositive como uma iniciativa para garantir que a inovação tecnológica evolua em sintonia com os artistas, da mesma forma que transições anteriores — do celuloide ao digital, dos efeitos práticos à produção virtual — remodelaram o cinema sem eliminar seu núcleo humano.
A origem da InterPositive remonta a 2022, quando Affleck começou a explorar como ferramentas de IA poderiam otimizar fluxos de produção. Trabalhando com engenheiros, pesquisadores e executivos criativos, a empresa desenvolveu sistemas proprietários projetados para auxiliar cineastas em desafios técnicos e editoriais. Segundo Affleck, o primeiro modelo foi treinado com um banco de dados próprio capturado em estúdio fechado e projetado para “compreender lógica visual e consistência editorial”, preservando regras cinematográficas sob restrições reais de produção.

O foco, notadamente, está na mecânica da produção e não na manipulação de performances. As ferramentas da InterPositive visam resolver questões como planos ausentes, substituição de fundos ou inconsistências de iluminação, problemas que podem inflar orçamentos e prolongar cronogramas. Diretores também podem carregar material bruto diário para ajustar o sistema a projetos específicos, moldando o modelo à linguagem visual de determinado filme ou série.
Ainda assim, qualquer iniciativa envolvendo IA chega a Hollywood como ponto de tensão. As disputas trabalhistas de 2023 entre roteiristas e atores tiveram a automação como tema central, e o temor de substituição de empregos permanece latente. A Netflix buscou enfrentar essas preocupações diretamente, divulgando um vídeo complementar com Affleck, a diretora de produto e tecnologia da empresa, Elizabeth Stone, e a diretora de conteúdo, Bela Bajaria.
“Nossa relação com os artistas sempre foi baseada na confiança”, afirmou Bajaria, enfatizando que novas ferramentas devem expandir a liberdade criativa e não substituir roteiristas, diretores ou equipes técnicas. Stone reforçou essa posição, descrevendo a tecnologia da InterPositive como “desenvolvida especificamente para cineastas e showrunners” e alinhada à filosofia da Netflix de que a inovação deve empoderar, não suplantar, os criadores.
Affleck vem debatendo publicamente as implicações da IA há anos. Em conferência da CNBC em 2024, argumentou que a tecnologia provavelmente “desintermediará os aspectos mais trabalhosos, menos criativos e mais caros da produção cinematográfica”, potencialmente reduzindo barreiras de entrada e permitindo que mais realizadores concretizem projetos ambiciosos. Ele tem rejeitado consistentemente a ideia de que a IA possa substituir integralmente a atuação ou a direção, embora reconheça ganhos de eficiência.
A aquisição também representa uma inflexão estratégica rara para a Netflix. Historicamente, a empresa privilegiou o desenvolvimento interno de tecnologia, em vez da compra de startups. Fora a recente aquisição da plataforma de avatares Ready Player Me, a companhia tem sido seletiva em fusões e aquisições. A InterPositive, portanto, surge como exceção relevante — e como indicativo de que ferramentas de IA podem se tornar centrais em sua estratégia de produção de longo prazo.
A relação de Affleck com a Netflix já é ampla. Sua produtora, Artists Equity, assinou recentemente um acordo de prioridade (“first-look”) com o streaming, e seu próximo longa como diretor, “Animals”, coestrelado por Kerry Washington e Gillian Anderson, deve estrear na plataforma ainda este ano.
Com a InterPositive, porém, Affleck assume um papel diferente: não apenas como talento ou produtor, mas como evangelizador tecnológico dentro de uma das empresas mais poderosas de Hollywood.