Redação Culturize-se
O cenário cultural brasileiro, rico em instituições que há décadas equilibram arte e história, passa por uma transformação profunda. Museus icônicos como o Museu de Arte de São Paulo (MASP), com sua arquitetura singular na Avenida Paulista, e o Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, continuam a nutrir o diálogo entre o observador e a obra, valorizando o acervo físico e o contexto. No entanto, o surgimento e a popularidade explosiva das exposições interativas e imersivas estão redefinindo o conceito de visita cultural, colocando o Brasil na vanguarda de uma tendência global que busca tornar a arte e o conhecimento mais dinâmicos, mas que também enfrenta fortes críticas de especialistas.
O cerne desta revolução interativa reside na capacidade de transformar o visitante de um observador passivo em um protagonista da experiência. Instituições como o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, já se destacam por sua proposta educativa e interativa, usando a arquitetura futurista para facilitar a imersão em temas de ciência e sustentabilidade. Essa fusão de estrutura, tecnologia e tema reflete a busca por ambientes bem planejados que maximizem a experiência sensorial do público.
Experiência compartilhada
A incorporação de tecnologias avançadas, como a Realidade Aumentada (RA) e a Realidade Virtual (RV), é o motor desse boom interativo. A RA, em particular, desponta como uma ferramenta acessível e versátil para os museus. Ela sobrepõe conteúdo digital ao mundo real – geralmente através de um smartphone – permitindo que os visitantes desvendem histórias ocultas, vejam animações ou tenham acesso a informações adicionais sem a necessidade de headsets caros ou sensores complexos, como exige a RV.
Jim Richardson, Fundador da MuseumNext, enfatiza as vantagens da RA: “É mais acessível de desenvolver do que a Realidade Virtual e depende de dispositivos que a maioria dos visitantes já carrega.” Além disso, a RA permite experiências compartilhadas, uma grande vantagem, visto que a maioria das visitas a museus são eventos sociais.
Exemplos internacionais mostram o potencial dessa tecnologia. O Muséum national d’Histoire naturelle em Paris utilizou a RA no projeto “REVIVRE”, onde os visitantes ficam cara a cara com animais extintos em 3D e em tamanho real. O National Museum of Singapore criou a instalação “Story of the Forest”, transformando desenhos históricos de história natural em animações tridimensionais, numa espécie de “Pokémon Go” educativo onde os visitantes ‘caçam’ plantas e animais virtuais para obterem informações detalhadas.

No Brasil, os museus já utilizam exposições temporárias, oficinas e palestras interativas, mas a tendência é que a RA e a RV sejam cada vez mais integradas para dar vida às coleções, seja através de narrações de artistas digitais ou da reconstrução vívida de cenas históricas.
A interatividade e o engajamento digital não servem apenas ao entretenimento ou à história da arte; eles se tornaram ferramentas essenciais para enfrentar desafios contemporâneos urgentes, como a crise climática.
Os museus, tradicionalmente vistos como espaços de preservação do passado, agora são reposicionados como “patrimônio estratégico para a ação climática”. No contexto da COP 30 e de eventos como a 19ª Primavera dos Museus – que reuniu instituições da USP –, o debate se concentra em como esses espaços podem traduzir a complexa relação entre cultura, história e meio ambiente para o público global.
Por meio de exposições interativas e educativas, como as visitas mediadas no Museu do Ipiranga sobre as transformações do seu Jardim ou as atividades do Museu da Educação e do Brinquedo sobre educação socioambiental, os museus documentam a capacidade de adaptação humana e a vulnerabilidade frente às mudanças ambientais. Eles não apenas preservam registros históricos de ecossistemas desaparecidos, mas assumem um papel transformador, mobilizando a sociedade na construção de respostas para os desafios do futuro.
A Disneylândia da arte
Apesar do sucesso e do potencial educativo, o boom das exposições imersivas baseadas em projeções de obras consagradas (como “Van Gogh: The Immersive Experience” ou “Beyond Monet”) tem atraído fortes críticas de historiadores de arte e curadores.
O principal ponto de conflito é a recontextualização digital forçada. Segundo os críticos, essas mostras são, na verdade, “espetáculos de projeção de grande formato” que retiram obras de artistas falecidos de seu contexto original para apresentá-las como reproduções digitais em paredes vazias, cobrando preços, muitas vezes, superiores aos de museus tradicionais.
“O objetivo destes espetáculos é puro entretenimento, transformando uma exposição de arte numa experiência de Disneyland”, critica um artigo do meio especializado. A tese é que o foco está na experiência visual de alto impacto, nas luzes e nos efeitos especiais, e não na compreensão contextual do artista ou do movimento artístico.

A crítica aponta para a “instagramificação da arte”: o fenômeno em que os espaços são construídos para serem altamente fotogênicos e gerar “conteúdo partilhável” nas redes sociais, respondendo às necessidades do consumidor por experiências de impacto, mas negligenciando a pedagogia. Para os críticos, os museus, ao se configurarem à imagem da internet, tornam-se “indistinguíveis de qualquer número de locais e experiências culturais”, focando apenas na entrega de ‘conteúdo’ prazeroso e não-confrontacional.
A questão central reside na “aura irreprodutível em torno do original”, conceito imortalizado por Walter Benjamin. O visitante paga um preço alto para ver uma projeção de baixa ou média qualidade de obras que poderiam ser vistas em alta resolução gratuitamente em projetos como o Google Arts Project. Sem a textura da pincelada, a pátina ou o craquelure da obra original, a consciência estética é substituída pela mera diversão visual.
O Brasil abraça a tendência interativa como forma de engajamento e de debate social, mas enfrenta a tensão entre a inovação tecnológica – que democratiza o acesso e a informação – e a preservação do valor intrínseco e da profundidade estética da obra de arte física. A revolução digital nos museus é real e avança, mas o debate sobre o que se ganha e o que se perde nessa transição está apenas começando.