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O império do delírio: "Mountainhead" expõe a elite da tecnologia com humor ácido

Redação Culturize-se

Logo após o encerramento de “Succession”, série multipremiada que o consagrou como um dos roteiristas mais respeitados do Reino Unido, Jesse Armstrong faz sua estreia na direção com “Mountainhead”. O filme, lançado pela HBO, se afasta do tom trágico da série sobre a dinastia Roy para adotar a linguagem da comédia sombria, mirando agora o universo dos super-ricos do setor tecnológico.

“Mountainhead” narra um fim de semana em que quatro três bilionários e um multimilionário se reúnem em um resort nas montanhas para jogar pôquer. A mansão, que dá nome ao filme, foi construída por Hugo (Jason Schwartzman), criador de um aplicativo de meditação que busca expandir sua presença no mercado. Ao seu lado estão Venis (Cory Michael Smith), magnata das redes sociais considerado o homem mais rico do mundo; Jeff (Ramy Youssef), empresário de uma promissora empresa de inteligência artificial; e Randy (Steve Carell), um investidor de risco que ignora um diagnóstico médico grave.

Durante o encontro, os personagens acompanham pelos celulares a disseminação de caos global causado por uma atualização de IA generativa no app de Venis, que cria vídeos falsos e incita conflitos violentos ao redor do mundo. O colapso econômico e social avança, mas os protagonistas, isolados e protegidos em sua bolha de riqueza, não sabem como — ou se devem — reagir. Em vez de remorso, o que se vê é a avaliação fria de oportunidades. Jeff, cuja IA promete distinguir verdade de mentira, enxerga na crise uma chance de valorização do seu produto, enquanto Ven tenta comprar sua empresa. A negociação, marcada por cinismo e cálculo, simboliza a lógica fria que move os personagens, alheios às consequências humanas de suas criações.

A concepção de “Mountainhead” foi tão acelerada quanto a evolução tecnológica que satiriza. Em palestra no Hay Festival, Armstrong revelou ter apresentado a ideia em dezembro, escrito o roteiro em janeiro e filmado em apenas 22 dias. A edição foi concluída uma semana antes da estreia, no fim de maio. O ritmo vertiginoso teve como objetivo refletir a velocidade das mudanças provocadas pela tecnologia e as ansiedades sociais associadas a ela — especialmente em relação à inteligência artificial.

Foto: Divulgação

O filme representa também a primeira experiência de Armstrong como diretor. Conhecido por trabalhos anteriores como Peep Show, Fresh Meat e The Thick of It, ele revelou que sua motivação surgiu da vontade de experimentar algo novo e expressar, de forma direta, sentimentos relacionados ao mundo da tecnologia e aos homens que o comandam. A inspiração veio, em parte, da escuta obsessiva de podcasts de figuras como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Sam Altman, cujos discursos e jargões se tornaram matéria-prima para o roteiro.

Embora o filme tenha elementos em comum com “Succession” — especialmente o foco em personagens poderosos, masculinos e emocionalmente disfuncionais —, “Mountainhead” se estabelece como uma comédia. Ainda que sombria e amarga, a narrativa zomba da superficialidade e da mediocridade desses bilionários, cujo maior talento parece ser o de acumular capital, e não o de exercer qualquer tipo de liderança ética ou intelectual.

A crítica à elite tecnológica é conduzida com humor corrosivo. Armstrong retrata os quatro protagonistas como homens sem espírito, cercados de aduladores, incapazes de ouvir críticas ou perceber a própria insignificância. Venis é vaidoso e alienado, encantado com piadas ruins e cercado de bajuladores. Randy se esforça para parecer erudito, citando filosofia que não compreende. Hugo é retratado como um covarde mimado. Jeff, o único que transparece alguma humanidade, também revela, ao fim, sua completa falta de ética ao esperar que a crise se agrave para maximizar seus lucros.

O roteiro também investiga a desintegração da noção de realidade. A crise global é acompanhada de dentro de uma bolha de conforto, onde a tragédia alheia é tratada como abstração. Em uma das cenas mais reveladoras, Ven questiona se realmente existem “oito bilhões de pessoas tão reais quanto nós”, colocando em dúvida não apenas a veracidade dos vídeos gerados por IA, mas a própria existência dos outros como sujeitos. A desumanização é levada ao extremo, transformando o colapso em espetáculo sem consequências.

Segundo Armstrong, o objetivo do filme não é oferecer soluções, mas evidenciar o tipo de poder que essas figuras concentram, e como ele pode se tornar um risco concreto à sociedade. Para ele, a comédia funciona como ferramenta crítica. Escrever piadas fracas intencionalmente para grandes atores cômicos é parte do artifício: o riso desconfortável destaca a pobreza de espírito dos personagens. O diretor aproveita o talento de nomes como Steve Carell para transformar a ausência de graça dos personagens em momentos hilariantes.

A desumanização da elite em foco | Foto: Divulgação

Apesar do tom ácido, Armstrong se descreve como alguém avesso ao confronto. Ao comentar em entrevista à BBC sua decisão de não dirigir episódios de “Succession”, ele afirmou preferir colaborar de maneira respeitosa e discreta, confiando no trabalho dos colegas. Sua postura conciliadora contrasta com a acidez de suas criações, revelando um autor mais interessado em provocar reflexão do que em impor uma visão.

“Mountainhead” propõe uma sátira direta e mordaz sobre a elite tecnológica, apontando não apenas para os riscos que esses líderes representam, mas também para sua incapacidade de compreender o mundo que moldam. Ao fim, o filme deixa a impressão de que, embora não haja respostas fáceis, é possível — e necessário — ver essas figuras com clareza, rir de sua pretensão e recusar a reverência diante de seu poder.

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