Reinaldo Glioche
A 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo dedica um espaço especial ao cinema britânico contemporâneo. O Foco Reino Unido reúne 25 títulos — entre longas, curtas, produções e coproduções — que refletem a diversidade estética, narrativa e temática da produção audiovisual do Reino Unido, reafirmando o papel da Mostra como ponte entre cinematografias e culturas.
A seleção apresenta uma geração plural de realizadores, de novos talentos a cineastas consagrados, e mapeia um momento de efervescência criativa no cinema britânico. Entre os destaques estão “Urchin”, de Harris Dickinson, premiado na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes; “Christy”, de Brendan Canty, vencedor do Grande Prêmio da seção Generation 14plus da Berlinale; “Círculo Reto”, de Oscar Hudson, eleito melhor filme da Semana Internacional da Crítica de Veneza; e “Ish”, de Imran Perretta, que conquistou o prêmio do público também em Veneza.
O panorama inclui ainda estreias de direção e novos olhares sobre temas universais. Em “Madre Vera”, Cécile Embleton e Alys Tomlinson abordam espiritualidade e tradição sob uma lente poética; “California Schemin”, de James McAvoy, marca a estreia do ator escocês como diretor; e “Rose of Nevada”, de Mark Jenkin, reafirma o olhar artesanal e experimental que caracteriza sua filmografia.
Entre os cineastas já estabelecidos, destacam-se “A História do Som”, de Oliver Hermanus, drama que investiga as conexões humanas por meio da memória sonora; “Bugonia”, de Yorgos Lanthimos, mais uma fábula sombria e excêntrica do premiado diretor grego radicado no Reino Unido; “The Choral”, de Nicholas Hytner, que combina musicalidade e crítica social; e “Mare’s Nest”, de Ben Rivers, um ensaio visual sobre tempo, natureza e linguagem cinematográfica.

Alguns títulos do Foco Reino Unido exploram questões identitárias e geopolíticas que atravessam a produção britânica recente. “A Sombra do Meu Pai”, de Akinola Davies Jr., ambientado na Lagos de 1993, retrata a crise política nigeriana a partir de uma perspectiva íntima e visualmente potente. “Cartum”, de Anas Saeed, Rawia Alhag, Ibrahim Snoopy, Timeea Mohamed Ahmed e Phil Cox, discute o conflito no Sudão; “Cielo”, de Alberto Sciamma, é uma coprodução com a Bolívia que mescla realismo e fantasia; e “Palestina 36”, de Annemarie Jacir, revisita as raízes contemporâneas da região em um drama de memória e resistência.
O protagonismo feminino e as narrativas migratórias aparecem em “Sonhadoras”, de Joy Gharoro-Akpojotor, e “Noivas”, de Nadia Fall, ambos retratos sensíveis sobre deslocamento e autonomia. Já “Retiro”, de Ted Evans, examina a solidão urbana e a comunicação na era digital.
Metalinguagem e experimentação
A programação também reserva espaço para obras que refletem sobre o próprio fazer cinematográfico. “Nova ’78”, de Aaron Brookner e Rodrigo Areias, revisita o espírito do cinema independente dos anos 1970; “Filmar ou Morrer”, de Lúcia Nagib, investiga a resistência política no cinema brasileiro e britânico; e “Broken English”, de Jane Pollard e Iain Forsyth, questiona os limites entre ficção e documentário.
Complementando o panorama, quatro curtas-metragens — “Dia do Caranguejo”, de Ross Stringer; “Ilha da Calamidade”, de David Johnson; “Sua Montanha Te Espera”, de Hannah Jacobs; e “Vigília Noturna”, de John Stevensonn e Aiesha Penwarden — integram a 2ª Mostrinha, seção voltada ao público infantil.
Com essa seleção, a Mostra reafirma sua vocação para revelar tendências, promover o diálogo entre culturas e expandir o olhar do público sobre o cinema mundial. O Foco Reino Unido funciona como um retrato multifacetado de uma cinematografia em constante transformação, onde tradição e inovação caminham lado a lado, traduzindo a vitalidade artística e política do cinema britânico contemporâneo.