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Entre o pop e a introspecção, MØ testa limites em "Plæygirl"

Redação Culturize-se

A artista pop dinamarquesa retorna com “Plæygirl”, seu quarto álbum de estúdio, que a encontra em uma encruzilhada estilística e emocional. Conhecida por muitos pelo sucesso global de 2015 “Lean On”, em parceria com o Major Lazer, MØ passou boa parte da última década tentando se afastar das expectativas do pop comercial, optando por uma sonoridade mais sombria e introspectiva. “Plæygirl” é o mais recente passo nessa evolução — um álbum que mistura a energia pulsante das pistas de dança com uma melancolia contemplativa, ainda que nem sempre sem conflitos criativos.

Há momentos de brilho inegável. A faixa de abertura, “Keep Moving”, é um hit de pista com toques oitentistas, coproduzido com The Dare, evocando a energia glam do Pet Shop Boys e o carisma punk de Peaches. “Heartbreaks”, uma das faixas finais, também captura esse espírito eufórico, mantendo a marca registrada melancólica de MØ. Colaborações como “Sweet”, com Biig Piig, trazem lampejos de personalidade, celebrando identidades outsiders com letras inteligentes, enquanto “Knife” remete à disco-pop romântica de Robyn.

No entanto, apesar dos momentos dançantes, “Plæygirl” frequentemente recua para um território mais contido. Faixas como “Wake Me Up” e a reluzente “Without You” mostram o dom de MØ para a sutileza emocional, explorando texturas retrofuturistas que transitam entre trap, electro-pop e trance dos anos 90. Seus produtores, Nick Sylvester e o colaborador de longa data Ronni Vindahl, criam uma paisagem sonora elegante e bem elaborada, dando espaço às letras introspectivas e à melancolia nórdica da cantora.

Ainda assim, o álbum não é isento de falhas. Fãs de longa data notaram uma mudança na entrega vocal de MØ. Onde seus trabalhos anteriores transbordavam energia crua, rouquidão e intensidade emocional, aqui sua voz por vezes soa distante e excessivamente polida. Parece uma escolha deliberada — talvez para acompanhar a produção brilhante —, mas que acaba por tornar algumas faixas emocionalmente apagadas. Em músicas como “Who Said”, o uso de um sample do The Knife combinado a um refrão destoante resulta numa audição fragmentada. Enquanto isso, faixas como “Sweet” não aproveitam todo o potencial das colaborações, soando genéricas em vez de essenciais.

A tensão entre a inclinação introspectiva de MØ e sua identidade anterior de estrela das paradas percorre todo o disco. Ao tentar equilibrar a energia do pop dançante com a vulnerabilidade indie, “Plæygirl” às vezes parece mais uma ideia em teste do que uma visão plenamente realizada. Mesmo a inclusão de um cover de “Wake Me Up”, de Avicii, como faixa bônus, reforça a sensação de que a coesão foi sacrificada em nome da ambição.

Ainda assim, há uma sinceridade no coração de “Plæygirl” que impede o álbum de fracassar. MØ continua sendo uma figura fascinante no alt-pop — uma mistura paradoxal de timidez e ousadia experimental. Embora o álbum talvez não tenha o impacto visceral de seus primeiros trabalhos, confirma sua recusa em permanecer estática. Para o bem ou para o mal, “Plæygirl” é o som de uma artista em transição, buscando novas formas de expressar emoções antigas — e, às vezes, essa vulnerabilidade é uma força por si só.

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