Redação Culturize-se
A morte do escritor peruano Mario Vargas Llosa, aos 89 anos, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010, reverberou profundamente no mundo da cultura e da política, suscitando uma onda de homenagens e reflexões sobre sua vasta obra e suas controversas posições ideológicas. Ao longo de seis décadas de prolífica produção literária, que abrangeu romances, contos, ensaios, peças de teatro e artigos de jornal, Vargas Llosa construiu um legado inegável, marcado por uma experimentação narrativa inovadora e uma crítica social contundente, especialmente direcionada ao autoritarismo e à complexa realidade latino-americana.
No entanto, a trajetória intelectual do escritor peruano foi também marcada por uma significativa guinada ideológica, que o afastou de suas primeiras simpatias pela esquerda, manifestadas em seu apoio inicial à Revolução Cubana e a figuras como Fidel Castro. A desilusão com o regime cubano, especialmente após a perseguição ao poeta Heberto Padilla, representou um ponto de inflexão em seu pensamento, conduzindo-o a abraçar o liberalismo com fervor. Essa conversão ideológica, influenciada por encontros com pensadores como Isaiah Berlin e Karl Popper, e pela ascensão de Margaret Thatcher ao poder, moldou suas opiniões políticas nas décadas seguintes, gerando debates acalorados e, por vezes, rompimentos com amigos e intelectuais de sua geração.
No Brasil, a figura de Vargas Llosa ganhou notoriedade adicional em 2022, quando, em meio a uma das eleições presidenciais mais polarizadas da história recente do país, o escritor declarou publicamente sua preferência por Jair Bolsonaro em detrimento de Luiz Inácio Lula da Silva. Suas declarações, proferidas em um evento no Uruguai e em entrevista à Folha de S. Paulo, causaram grande polêmica, especialmente entre setores progressistas da sociedade brasileira. Vargas Llosa reconheceu as “palhaçadas” de Bolsonaro e suas “posições sobre as vacinas” que, segundo ele, provocaram uma “verdadeira catástrofe” no Brasil. Contudo, sua aversão a Lula, a quem acusou de “corromper profundamente” governantes latino-americanos, inclusive no Peru, o levou a manifestar seu apoio ao então presidente.
Essa tomada de posição em um contexto político tão sensível expôs a complexidade da figura de Vargas Llosa, um intelectual de prestígio mundial cuja obra literária era amplamente celebrada, mas cujas escolhas políticas geravam controvérsia. Sua defesa de pautas consideradas progressistas em temas sociais, como o aborto, a eutanásia, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a legalização das drogas, contrastava com seu alinhamento a figuras conservadoras da política latino-americana e sua admiração por líderes como Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Essa aparente contradição em seu pensamento foi notada por críticos como a professora Lívia Reis, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que em entrevista ao O Globo, observou que “o legado literário do escritor não condiz com o legado ideológico do homem que abandonou seus ideais e sua visão críticas dos tempos de juventude”.
Apesar das polêmicas, o legado literário de Mario Vargas Llosa permanece inabalável. Sua obra ficcional, marcada por romances inovadores como “A cidade e os cachorros” (1963), que radiografa a violência e a hipocrisia em um colégio militar peruano, “A Casa Verde” (1966), uma complexa narrativa ambientada na Amazônia peruana, e o aclamado “Conversa no Catedral” (1969), um pungente apelo contra a corrupção e o autoritarismo, revolucionou a narrativa latino-americana, contribuindo para o fenômeno do “boom” literário. Sua maestria na experimentação narrativa, com a multiplicidade de pontos de vista, diálogos simultâneos e a complexa articulação de diferentes planos espaço-temporais, influenciou gerações de escritores.


Relação com o Brasil
A relação de Vargas Llosa com o Brasil é particularmente notável, culminando na publicação de um de seus romances mais celebrados, “A Guerra do Fim do Mundo” (1981). Inspirado na leitura de “Os Sertões” de Euclides da Cunha, o livro revisita a Guerra de Canudos no sertão nordestino do século XIX, oferecendo uma narrativa polifônica que explora o choque entre a modernidade e a tradição, e conferindo novas dimensões a figuras históricas como Antônio Conselheiro. Essa obra de Vargas Llosa consolidou-se fundamental para qualquer pesquisa sobre o conflito de Canudos, revelando a visão do autor sobre a “fragilidade de uma república”.
A Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual Vargas Llosa era um prestigiado sócio correspondente, lamentou profundamente sua morte, destacando sua relação com autores da casa, como Nélida Piñon, a quem dedicou “A Guerra do Fim do Mundo”, fruto de meses de pesquisa no sertão brasileiro. A obra é considerada por muitos como um épico latino-americano, testemunho da profunda imersão de Vargas Llosa na história e na cultura do Brasil.
A trajetória de Mario Vargas Llosa, marcada por uma genialidade literária inquestionável e por controvérsias ideológicas que dividiram opiniões, reflete a complexidade de um intelectual engajado com o seu tempo. Seu legado literário, que continua a inspirar e a desafiar leitores em todo o mundo, perdurará para além de suas escolhas políticas, consolidando-o como um dos maiores nomes da literatura contemporânea em língua espanhola e um observador perspicaz das convulsões sociais e políticas da América Latina. Sua morte representa a perda de um “príncipe da inteligência”, cuja obra continuará a ecoar através das décadas, convidando a novas leituras e debates sobre as intrincadas relações entre literatura, política e a condição humana.