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Lorde transforma dor e prazer em arte pop em "Virgin"

Redação Culturize-se

Doze anos após ter explodido no cenário pop com “Royals”, aos 16 anos, Lorde retorna com seu quarto álbum, “Virgin”, mais intensa, densa e autoconfiante do que nunca. Lançado em meio a uma nova fase de visibilidade — turbinada por aparições públicas, entrevistas francas e uma residência criativa em Nova York — o disco representa tanto uma ruptura estética quanto um mergulho brutalmente íntimo em temas como trauma, sexualidade, identidade de gênero e desordens alimentares. É a obra mais curta da artista (35 minutos), mas também a mais saturada de camadas pessoais.

Desde o início, Lorde sempre fez dos seus álbuns cápsulas de tempo emocional. “Pure Heroine” falava da adolescência entediada e orgulhosamente fora do padrão. “Melodrama” foi um retrato vívido da ressaca emocional pós-rompimento. “Solar Power” trouxe a fuga bucólica e etérea da pandemia — e agora “Virgin” confronta os destroços internos deixados por tudo isso. Com produção de Jim-E Stack, conhecido por trabalhos com Bon Iver e Kacy Hill, o disco abandona os violões minimalistas de “Solar Power” em favor de batidas eletrônicas, texturas densas e mudanças rítmicas abruptas, que refletem os conflitos internos da cantora.

Fotos: Divulgação

A mudança sonora é notável. “Hammer”, a faixa de abertura, já evidencia que o terreno mudou: “Há um calor no asfalto, meu mercúrio está disparado / Não sei se é amor ou ovulação”, canta Lorde, no que parece um aceno tanto à vulnerabilidade hormonal quanto ao impulso criativo. Ao longo da faixa, ela afirma: “Alguns dias sou mulher, outros sou homem”, em um verso que sintetiza a fluidez temática e identitária que percorre o disco.

Essa franqueza se estende a “Clearblue”, balada a capella construída com vocoder que remete diretamente ao Bon Iver de “715 – CRΣΣKS”. O título faz referência a uma marca de testes de gravidez, mas a estética robótica contrasta com a vulnerabilidade do tema, resultando numa das canções mais inesperadas da carreira de Lorde. A colaboração com Jim-E Stack rendeu ainda a climática “Shapeshifter”, em que a voz da cantora se desintegra aos poucos sob uma batida que acelera até atingir o clímax. São momentos assim que demonstram como “Virgin” integra forma e conteúdo em um mesmo gesto artístico.

Instalada agora em Nova York, a cidade ganha protagonismo no disco — tanto nas letras quanto na divulgação. Lorde estreou a faixa “What Was That” com um show surpresa em Washington Square Park, e cita pontos da cidade como Canal Street e Prince Street em versos que transformam espaços urbanos em metáforas emocionais. “Na cidade, ouço as vozes dos antigos, eles estão nos chamando”, canta em “If She Could See Me Now”, em tom quase místico. O videoclipe de “Man of the Year” é ambientado em uma recriação do Earth Room de Walter De Maria, obra de arte conceitual exposta em SoHo desde os anos 1970 — outra ponte entre a efemeridade do pop e a densidade histórica da arte contemporânea.

Mas se a metrópole empresta exuberância ao disco, é o corpo de Lorde que o ancora. A capa, uma imagem de raio-x de sua própria pelve, antecipa a exposição radical presente nas letras. Lorde fala abertamente de distúrbios alimentares, medo de envelhecer diante das câmeras, relações instáveis com drogas e ansiedade. Em entrevista recente, revelou ter recorrido à terapia com MDMA para superar a paralisia do palco. As letras de “What Was That”, aliás, parecem continuar esse diálogo com o trauma e o desejo: “MDMA no jardim, nossas pupilas dilatadas / Nos beijamos por horas, baby, o que foi aquilo?”

Esse gesto confessional se alinha à estética de “oversharing” que marca o pop feminino contemporâneo — e que Lorde ajudou a pavimentar. Em sua colaboração com Charli xcx no remix de “Girl, So Confusing”, ela desconstrói os sentimentos de admiração e rivalidade entre mulheres na indústria, expondo a tensão entre a comparação constante e a busca por conexão genuína. Em vez de um diss track, a faixa soa como uma catarse compartilhada — um raro momento de reflexão mútua.

É essa habilidade de transformar experiências pessoais em narrativas pop universais que mantém Lorde como uma referência para artistas de sua geração e das próximas. Suas melhores músicas — de “Hard Feelings/Loveless” a “Green Light” e “Supercut” — evidenciam a consistência de uma carreira que, mesmo com longos intervalos, nunca perde relevância.

“Virgin” pode não ter a acessibilidade imediata de “Melodrama” ou a energia juvenil de “Pure Heroine”, mas oferece algo mais raro: a crueza de uma artista que escolhe encarar suas próprias contradições sem medo. A sexualidade aqui não é glamourizada; é confusa, potente, politizada. O amor não é idealizado, mas filtrado por desconfiança e autossabotagem. O corpo é terreno de batalha e autoconhecimento. E a música, como sempre, é o meio e o fim.

Ao rejeitar os moldes tradicionais da cultura pop – incluindo a presença constante nas redes e a exigência por hits imediatos – Lorde reforça sua autonomia artística. A cada quatro anos, ela volta à superfície com um retrato renovado de si mesma. Em “Virgin” ela nos oferece um espelho quebrado de seus anos recentes. Um espelho no qual, com sorte, podemos nos ver também.

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