Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

Crise do arquétipo de masculinidade é tema do livro "O Homem Não Existe"

Redação Culturize-se

Em “O Homem Não Existe” (2024), a crítica literária Ligia Gonçalves Diniz parte de uma provocação: se Jacques Lacan afirmava que “a mulher não existe” — por ser indefinível em uma única forma de gozo —, por que não inverter a lógica e questionar a própria noção de masculinidade? O que emerge dessa inversão é uma análise afiada, e muitas vezes hilária, sobre como a literatura e a cultura construíram (e fracassaram em sustentar) a ideia do homem como um arquétipo coerente.

O livro não se propõe a ser um tratado psicanalítico, mas uma investigação literária. Diniz recorre a personagens como o capitão Ahab de “Moby Dick”, obcecado por sua caça autodestrutiva, ou Nathan Zuckerman, o alter ego misógino de Philip Roth, para mostrar como a masculinidade se organiza em torno de eixos como potência, ira e medo do fracasso. E no centro dessa construção está, claro, o pênis — ou, como a autora brinca, “um chefe incompetente” que recebe toda a culpa quando as coisas dão errado.

A abordagem é tão crítica quanto generosa. Diniz não poupa figuras como Roth ou Hemingway, mas também não defende seu apagamento. Pelo contrário: argumenta que ler autores misóginos pode ser um exercício produtivo de alteridade. Afinal, como entender a violência de um Ahab sem se colocar, ainda que por um momento, em sua pele? Essa não é uma defesa da misoginia, mas um reconhecimento de que a literatura nos permite habitar experiências alheias — até as mais perturbadoras.

Version 1.0.0

Essa discussão se desdobra em uma reflexão sobre o “cancelamento” literário. Para Diniz, há uma diferença crucial entre criticar autores problemáticos e fingir que eles não existiram. Ignorar a influência de um Hemingway ou de um Roth, ela argumenta, é apagar parte da própria história cultural que nos formou. O desafio, então, não é deixar de lê-los, mas fazê-lo com os olhos abertos para suas contradições.

Mas se o livro expõe as fragilidades da masculinidade tradicional, também aponta para seu esgotamento. Diniz observa que, embora a literatura ainda seja dominada por vozes masculinas e brancas, há um cansaço crescente em relação a narrativas que giram em torno do “escritor paulistano branco infeliz no amor” (como ela mesma brinca). A ascensão de autoras como Jamaica Kincaid e Andréa del Fuego não é apenas uma correção de injustiças históricas, mas uma renovação estética: novas formas de existir no mundo demandam novas formas de escrevê-lo.

No fim, “O Homem Não Existe” não é um ataque aos homens, mas uma investigação sobre como eles foram inventados — e como podem ser reinventados. Se a masculinidade hegemônica é uma ficção cheia de furos, a literatura, com seu poder de criar e destruir arquétipos, talvez seja o lugar ideal para imaginar alternativas. Como Diniz sugere, o homem pode não existir como essência, mas existe como personagem — e personagens, ao menos na ficção, sempre podem ser reescritos.

Isso pode te interessar

Tecnologia

Criador do Orkut quer ressuscitar a rede por "uma internet mais humana"

Comportamento

Para a Geração Z, ser fã é projeto de vida

Estudo aponta que três em cada cinco jovens veem seus fandoms como parte essencial de quem são

Exposições

Cantora Marília Mendonça ganha exposição sensorial no MIS

Streaming

De Chucky a Hannibal Lecter: Universal+ reforça catálogo para o Halloween

Plataforma reúne décadas de pesadelos cinematográficos, com produções sobrenaturais, thrillers psicológicos e histórias de assassinos

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.