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Justin Bieber lança “SWAG”, seu disco mais estranho e sincero

Por Reinaldo Glioche

Em 2025, a ideia de Justin Bieber lançar um álbum chamado “SWAG” poderia soar como uma piada de internet, mas o disco está aí: “SWAG”, sétimo álbum de estúdio de Bieber, foi lançado na sexta (11), sem divulgação tradicional, aparentemente sincronizado com o impulso viral de sua recente e surreal frase de efeito: “It’s not clocking to you that I’m standing on business”. Um momento confuso e pronto para virar meme – e uma introdução surpreendentemente adequada para um disco que abraça o absurdo, a nostalgia e a transparência emocional em doses iguais.

À primeira vista, “SWAG” parece uma volta de Bieber à era do rap de toque de celular ou do hedonismo da era MySpace. Afinal, ele vinha provocando o projeto com lives lo-fi no Instagram, trechos de freestyle sobre batidas à la Clams Casino e até sessões de estúdio com Lil B, lenda do Based God. Mas em vez de uma homenagem direta àquele tempo, “SWAG” se revela algo mais estranho, suave e emocionalmente rico do que o título sugere. É um álbum lo-fi, de gênero indefinido, enraizado na estética do cloud rap, com texturas de sintetizadores dos anos 1980 e uma surpreendente dose de intimidade.

A produção, liderada por Eddie Benjamin e Carter Lang, com contribuições importantes de Mk.gee e Dijon, aposta em instrumentações atmosféricas: reverberações cavernosas, baterias distorcidas e guitarras intricadas. Faixas como “First Place” e “Daisies” flutuam com a melancolia de um sonho meio esquecido, unindo texturas próximas ao shoegaze com letras confessionais. As linhas de guitarra de Mk.gee são cruciais para o DNA sonoro do disco, dando até aos momentos mais polidos uma sensação de crueza e carga emocional.

Nas letras, “SWAG” é profundamente pessoal. O destaque “Go Baby” soa como uma carta de amor direta a Hailey Bieber. “Essa é a minha baby, ela é icônica, capinha de iPhone, gloss nela”, canta Bieber com uma casualidade desarmante que consegue ser íntima e cativante. A frase evoca uma imagem específica, ancorada na vida de celebridade do casal, mas humana em sua simplicidade. “Chore no meu ombro sempre que precisar”, ele oferece depois, revelando o peso emocional da fama sobre o relacionamento. É o tipo de faixa feita sob medida para dirigir à meia-noite ou acompanhar edições de fãs no TikTok.

Faixas como “Devotion”, que conta com Dijon, mergulham ainda mais fundo na intimidade do amor de longo prazo. Aqui, Bieber troca ganchos pop por vocalizações suaves sobre batidas lo-fi, evocando a sensualidade e a complexidade de estar com alguém que o conhece melhor do que ele mesmo. As letras, embora às vezes beirem o clichê, são salvas pela instrumentação minimalista e jazzística e pela contenção vocal de Bieber. Está longe de seus hits pop do início da carreira, mas não é menos envolvente.

“Way It Is”, com participação de Gunna, se destaca como a faixa mais pronta para as rádios, mesclando o estilo “R&Bieber” com um leve brilho de sintetizadores oitentistas. O verso de Gunna é surpreendentemente terno – ele fala sobre formar uma família – enquanto Bieber aposta na sinceridade: “Sem mais drama, sem motivo pra complicar”. É uma faixa rara que consegue ser comercial e honesta ao mesmo tempo.

Mas “SWAG” não é apenas um álbum sobre o amor. Há momentos de experimentação inusitada que levam Bieber a territórios imprevisíveis e empolgantes. “Dadz Love”, sua colaboração com Lil B, é a faixa mais estranha e fascinante do disco. Sobre uma batida abafada e um acorde repetitivo, Bieber entoa um mantra ambíguo – “that’s love”, “dad’s love”, ou os dois – enquanto Lil B oferece afirmações distorcidas em spoken word. A faixa soa como uma colagem de cloud rap, dub da era Black Ark e postagens existencialistas em rede social. É um ponto alto, não apenas por sua excentricidade, mas por mostrar Bieber abraçando o estranho de forma corajosa.

Foto: Divulgação

Há também “Butterflies”, uma faixa em falsete livre e abençoada, talvez o momento mais bonito do disco em termos sonoros. Ao contrário de muitas faixas, ela não menciona Deus nem Hailey – é só Bieber, suspenso num banho sonoro etéreo.

Mesmo quando “SWAG” flerta com o pastiche, emprestando referências de Bon Iver e The Weeknd, a voz de Bieber mantém tudo coeso. Seu falsete dá peso às faixas. Sua presença confere unidade a um álbum que é propositalmente solto e fragmentado.

O que Bieber entrega é um registro de verdadeira evolução artística. Ele mergulha na estética pós-digital do nosso tempo: difusa, nostálgica, fragmentada, mas emocionalmente autêntica. Não se trata apenas de desbloquear o “swag” — é sobre reformulá-lo em algo novo.

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