Redação Culturize-se
Uma nova pesquisa da Common Sense Media revelou uma tendência marcante: mais da metade dos adolescentes americanos agora são usuários regulares de companheiros de IA, como Character.AI e Replika. Esses bots, projetados para simular personalidades humanas, rapidamente se integraram ao tecido social e emocional da vida dos jovens. Embora a maioria dos adolescentes ainda diga que passa mais tempo com amigos humanos, os dados mostram que uma parcela significativa agora considera as interações com companheiros de IA tão satisfatórias – ou até mais – do que conversas com pessoas reais.
A pesquisa entrevistou 1.060 adolescentes de 13 a 17 anos em todo os Estados Unidos e descobriu que cerca de 75% já usaram um companheiro de IA ao menos uma vez, sendo que mais da metade os utiliza regularmente – o que significa interações algumas vezes por mês. Enquanto 46% disseram enxergar esses bots principalmente como ferramentas, cerca de um terço relatou usá-los para apoio emocional, brincadeiras de faz de conta, amizade ou até mesmo interações românticas. O dado mais preocupante: 31% afirmaram que suas conversas com bots são tão gratificantes quanto com amigos da vida real, e 10% disseram que são ainda mais satisfatórias.
Segundo o Dr. Michael Robb, diretor de pesquisa da Common Sense, os resultados são tanto surpreendentes quanto preocupantes. “É revelador o quanto essa tecnologia já está normalizada entre os adolescentes”, afirmou. Robb apontou que muitos jovens usam os bots de forma pragmática, seja para entretenimento ou para praticar interações sociais. No entanto, há sinais inquietantes por trás dessa tendência, especialmente entre o terço que relata discutir temas sérios ou sensíveis com a IA em vez de com pessoas confiáveis de seu convívio.
Essa preocupação se intensifica diante de controvérsias recentes. A Character.AI e seu investidor, o Google, enfrentam atualmente processos judiciais devido a alegações de envolvimento da plataforma em interações emocionalmente e sexualmente inapropriadas com menores – incluindo um caso trágico em que um garoto de 14 anos morreu por suicídio após se envolver intensamente com o serviço. Essas ações, juntamente com um relatório de segurança publicado anteriormente pela Common Sense em parceria com a Universidade Stanford, revelam uma perigosa falta de mecanismos de proteção nas plataformas de IA voltadas a interações humanas.

Apesar de muitas dessas empresas afirmarem restringir o uso por menores de idade, o acesso continua fácil e a regulamentação, praticamente inexistente. Na maioria dos casos, os adolescentes só precisam de um e-mail válido e de informar uma data de nascimento para se cadastrar. O setor é amplamente autogerido, com poucas regras sobre como as plataformas de IA são construídas, divulgadas ou disponibilizadas para menores de 18 anos.
As implicações são significativas. Os adolescentes estão compartilhando livremente informações sensíveis – nomes, localizações, fotos e pensamentos íntimos – com plataformas cujos termos de uso frequentemente garantem a essas empresas direitos perpétuos sobre esses dados. “Existe um enorme risco do qual muitos jovens não têm consciência”, alertou Robb. Ele defende uma regulamentação mais rígida, maior responsabilidade das empresas de tecnologia e mais diálogo entre pais e filhos. “Não existe uma solução perfeita”, disse ele, “mas conversar sobre isso, sem julgamentos, já é um bom começo.”