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Inteligência artificial testa modelo de desenvolvimento brasileiro

Redação Culturize-se

A inteligência artificial consolida-se como vetor central de reorganização da economia mundial e impõe ao Brasil um dilema estratégico: transformar a tecnologia em instrumento de competitividade ou aprofundar distâncias regionais e produtivas já existentes. Organismos multilaterais como o Banco Mundial e a OCDE apontam que, em economias emergentes, a IA pode gerar ganhos relevantes de eficiência; desde que combinada a capital humano qualificado, governança e investimento contínuo em inovação.

Sem esses pilares, o efeito tende a ser concentrador. Relatórios da UNCTAD alertam que os investimentos globais em IA estão fortemente centralizados em poucos países e em grandes conglomerados de tecnologia, o que limita a autonomia tecnológica de nações em desenvolvimento.

Para João Paulo Ribeiro, CEO da ON, especializada em Customer Experience e integração entre pessoas e tecnologia, a IA representa uma oportunidade histórica, mas não automática. “Pode ser o maior motor de inclusão produtiva da nossa geração, mas só se for usada para ampliar acesso ao trabalho e à renda, e não apenas para substituir pessoas”, afirma. Em sua avaliação, a forte presença do setor de serviços no Brasil e a alta penetração digital criam condições para ganhos de produtividade sem dependência exclusiva de grandes investimentos industriais.

O debate brasileiro ocorre em paralelo a um movimento global de análise de riscos. Em discurso recente, o diretor do Federal Reserve, Michael Barr, apresentou três cenários possíveis para a trajetória da IA na economia.

No primeiro, a adoção seria ampla, porém gradual, permitindo que o mercado de trabalho se ajuste por meio de requalificação e adaptação educacional — em linha com revoluções anteriores, como a internet. No segundo, mais extremo, a difusão rápida da tecnologia superaria a capacidade de ajuste, provocando desemprego generalizado e queda na participação da força de trabalho. Nesse cenário, segundo Barr, seria necessário repensar redes de proteção social para evitar concentração excessiva de renda.

O terceiro cenário envolve gargalos estruturais — como limitações energéticas ou financeiras — que levariam a uma estagnação das capacidades da IA. A tecnologia se tornaria onipresente, mas não necessariamente transformadora.

Pesquisas recentes conduzidas por economistas ligados ao Banco da Inglaterra, ao Fed de Atlanta e a universidades europeias indicam que, até o momento, os impactos sobre emprego e produtividade são limitados. Mais de 90% dos gestores entrevistados não observaram mudanças significativas. Projeções, contudo, apontam aumento médio de 1,4% na produtividade e redução de quase 1% no emprego nos próximos três anos.

Foto: Reprodução/Internet

Para Mary Daly, presidente do Fed de São Francisco, muitas empresas estão em compasso de espera, avaliando o real alcance da IA antes de retomar contratações.

No contexto brasileiro, o impacto da IA dependerá menos do ritmo global e mais das escolhas locais. Empresas médias e negócios fora dos grandes centros podem desempenhar papel crucial na difusão tecnológica. A possibilidade de operar remotamente com apoio de sistemas inteligentes reduz barreiras geográficas e amplia acesso a mercados antes concentrados nas capitais.

Dados do IBGE e do Sebrae mostram, porém, que pequenas e médias empresas ainda enfrentam dificuldades na adoção de tecnologias avançadas. Para Ribeiro, a reversão desse quadro exige tratar a IA como infraestrutura de trabalho — e não apenas como ferramenta de automação.

Especialistas apontam quatro cuidados centrais para empresas que iniciam esse processo: diagnóstico preciso de áreas com potencial mensurável de ganho; investimento consistente em capacitação; escolha criteriosa de parceiros com governança de dados e segurança jurídica; e implementação gradual por meio de projetos-piloto.

A extensão da disrupção, como resumiu Barr, dependerá dos investimentos realizados na criação de novos empregos, na qualificação de trabalhadores e na mitigação de efeitos adversos. No Brasil, isso implica coordenação entre setor privado e políticas públicas para evitar que a IA reforce assimetrias regionais e setoriais.

Se bem conduzida, a tecnologia pode impulsionar produtividade, renda e novos polos econômicos no interior do país. Sem estratégia, poderá apenas ampliar a distância entre empresas digitalmente estruturadas e aquelas ainda à margem da transformação tecnológica.

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