Redação Culturize-se
Gostando ou não, a inteligência artificial deixou de ser um conceito especulativo na arquitetura. Ela se tornou uma presença ativa em escritórios, salas de aula e concursos, remodelando a forma como ideias são geradas, testadas e comunicadas. De grandes escritórios como o Zaha Hadid Architects — que desenvolveu ferramentas próprias de IA em parceria com a NVIDIA — à explosão de imagens geradas por inteligência artificial nas redes sociais, a tecnologia vem se incorporando rapidamente ao ecossistema criativo. Com essa expansão, surgem tensões: questionamentos sobre autoria, ética, vieses e sobre se uma máquina pode, algum dia, replicar a intuição, a empatia e a responsabilidade de um projetista humano.
Para o arquiteto Tim Fu, no entanto, o debate começa com uma mudança fundamental de perspectiva. “É importante encarar a IA como uma ferramenta”, defende, e não como um substituto da criatividade humana. Desde que fundou seu estúdio em Londres, em 2023, Fu passou a lidar com a tecnologia a partir do que chama de “mente aberta”, tratando a IA não como um atalho, mas como um novo tipo de colaborador.
“Sempre fui fascinado pela interseção entre arte e tecnologia”, explica Fu em entrevista à Wallpaper. “A IA, para mim, não é apenas uma ferramenta, mas uma colaboradora que abre novos horizontes criativos.” Essa colaboração, segundo ele, introduz uma tensão produtiva entre “intuição humana e inteligência de máquina”, desafiando arquitetos a repensar fluxos de trabalho tradicionais e pressupostos sobre autoria.

Recentemente, Fu ganhou destaque ao lançar o que descreve como o primeiro projeto arquitetônico totalmente conduzido por IA no mundo: um empreendimento residencial em Lake Bled, na Eslovênia. Ali, a inteligência artificial foi utilizada na fase conceitual para explorar estratégias de volumetria orgânica informadas por dados específicos do local. “Ao alimentar um modelo generativo de IA com dados contextuais — topografia, campos visuais, trajetórias solares —, produzimos múltiplas opções que mantinham a integridade do projeto, ao mesmo tempo em que otimizavam sustentabilidade e impacto visual”, afirma. O resultado não foi uma solução final, mas um conjunto de pontos de partida inesperados que reformularam a conversa de projeto.
A velocidade é uma vantagem evidente, mas Fu insiste que a eficiência é apenas parte da equação. “O ganho é duplo: velocidade e visão”, observa. “A IA amplia nossa capacidade de iterar rapidamente, mas, mais importante, ajuda a revelar soluções às quais talvez não chegaríamos por meios tradicionais”. Nesse sentido, a inteligência artificial funciona como um amplificador da imaginação, e não apenas como uma ferramenta de produtividade.
De forma decisiva, o estúdio de Fu integra a IA em todas as etapas do projeto. No início, ela auxilia na definição de formas, atmosfera e estratégia espacial. Mais adiante, ajuda a sintetizar informações complexas, de códigos urbanísticos a briefings de clientes. Nas fases de produção, a IA pode organizar grandes volumes de dados, automatizar cronogramas e otimizar layouts. “Ela não está mais restrita à fase inicial de ideação”, diz Fu. “Está se tornando parte integrante de todo o processo.”
Essa integração se apoia em um ecossistema tecnológico híbrido. Fu combina plataformas amplamente utilizadas, como Midjourney e Stable Diffusion, com Rhino e Grasshopper, além de desenvolver ferramentas proprietárias, como o UrbanGPT, um mecanismo de texto para modelo voltado ao planejamento urbano em tempo real. “É uma mistura de soluções proprietárias, de código aberto e sob medida”, explica, ajustadas a desafios específicos de projeto.
Ainda assim, Fu mantém uma visão lúcida sobre as limitações da IA. “Ela se destaca no reconhecimento de padrões e na otimização”, afirma, “mas é menos capaz quando se trata de ressonância emocional, ética ou de navegar relações humanas”. Essas dimensões, insiste, permanecem fundamentalmente humanas. O perigo está em confundir o resultado da IA com verdade. “Ela é sempre uma sugestão; um gatilho, não uma prescrição.”

As preocupações éticas também são centrais. Sistemas de IA podem reproduzir vieses, plagiar involuntariamente ou priorizar estéticas desconectadas do contexto local. Fu mitiga esses riscos mantendo o que chama de abordagem “humano no circuito”. Cada resultado gerado por IA é questionado, reformulado ou descartado, se necessário. “Tratamos a IA como uma assistente com imaginação vívida, não como uma tomadora de decisões”, resume.
Para Fu, a promessa da IA não está na automação, mas na expansão. “O mais empolgante é seu potencial de democratizar e ampliar os limites do projeto”, argumenta, apontando como pequenos escritórios e comunidades podem ter acesso a ferramentas antes restritas a práticas de elite. Olhando para o futuro, ele imagina uma IA nativa em geometria, profundamente integrada a ambientes e a processos colaborativos. “Ela não vai substituir arquitetos”, conclui. “Mas certamente vai redefinir o que significa ser arquiteto.”