Por Reinaldo Glioche
O blockbuster moderno de Hollywood já não é apenas um filme — é um investimento de alto risco, frequentemente oscilando entre o triunfo e o desastre. Se antes US$ 200 milhões pareciam o teto orçamentário, hoje as superproduções rotineiramente ultrapassam os US$ 300 milhões, sem contar os gastos com marketing. “Missão: Impossível – O Acerto Final” teria custado cerca de US$ 400 milhões após incentivos fiscais e deve fechar sua trajetória nos cinemas com cerca de US$ 600 milhões em arrecadação; “F1“, da Apple, também teve seu custo de produção em volta de R$ 330 milhões. Mesmo o “disciplinado” “Jurassic World: O Recomeço”, da Universal, teve um custo de produção de US$ 180 milhões – valor que salta com a campanha promocional.
E “Superman”? A principal aposta da Warner para 2025 custou quase US$ 400 milhões, fora o marketing, para ser produzido.

Esses números não são apenas gigantescos – são uma aposta. Com o streaming fragmentando o público, o cansaço com super-heróis se instalando e os hábitos pós-pandemia ainda em transição, os estúdios apostam tudo em um fator: o espetáculo. A crença é que apenas eventos cinematográficos de grande porte ainda conseguem atrair o público às salas. E, por ora, essa aposta tem trazido resultados – tímidos, desiguais, mas reais.
Nada exemplifica isso melhor do que “Jurassic World: Recomeço”, que estreou em 4 de julho arrecadando US$ 322,5 milhões no mundo todo – a segunda melhor abertura da franquia, atrás apenas do reboot de 2015. Feito notável, considerando que o filme apresenta um elenco completamente novo liderado por Scarlett Johansson. Em uma indústria obcecada por personagens legados e nostalgia, essa foi uma ruptura corajosa. A Universal confiou na capacidade da franquia de se reinventar sem perder seu público. Enquanto outras sagas provocam divisões entre fãs – seja por elenco, cronologia ou tom -, “Jurassic World” segue agradando a um público amplo. A campanha de marketing enfatizou isso, promovendo o filme como um recomeço, não uma repetição.

O público correspondeu. Famílias e espectadores latino-americanos compareceram em peso, reforçando o apelo intergeracional da franquia. Globalmente, a Universal fez apostas certeiras: bateu recorde com US$ 41,6 milhões de estreia na China, projetou um T-Rex em 3D em Seul e incluiu dinossauros em participações especiais no show de Beyoncé em Paris. A campanha de marketing – que custou US$ 150 milhões – esteve em todo lugar: finais da NBA, “America’s Got Talent”, e até no monólogo de Scarlett no “Saturday Night Live”. A NBCUniversal ativou todas as suas frentes – do Peacock aos parques temáticos – com conteúdo da franquia.
Esse sucesso ocorreu em um ano turbulento para o cinema. Os primeiros meses de 2025 foram sombrios: as vendas de ingressos caíram 13% em relação a 2024, que já havia sido um ano fraco. Grandes lançamentos como “Capitão América: Admirável Mundo Novo” fracassaram após a estreia, e “Branca de Neve”, da Disney, virou símbolo do desgaste causado por guerras culturais. Mas o verão trouxe fôlego novo: “Minecraft” surpreendeu com US$ 163 milhões, “Pecadores”, de Ryan Coogler, superou US$ 275 milhões só nos EUA, e “Lilo & Stitch” e “Missão: Impossível” impulsionaram um fim de semana do Memorial Day recorde. Em julho, a bilheteria já somava US$ 4 bilhões – alta de 18% em relação ao ano anterior.
Ainda assim, a recuperação é frágil. Até mesmo pelas cifras cada vez mais astronômicas para colocar esses filmes nas salas de cinema. Os números de junho caíram 6,5% em relação a 2024 e continuam 26% abaixo da média pré-pandemia. Ainda não é hora de comemorar.
Mesmo diante disso, os estúdios seguem apostando alto. A equação parece perigosa, mas o modelo ainda se sustenta – por pouco. Um filme como Superman, que teria custado US$ 363 milhões antes de incentivos, precisa arrecadar cerca de US$ 700 milhões para se pagar. Mesmo projetos mais conservadores, como “Jurassic World: Recomeço”, devem alcançar US$ 600 milhões para serem lucrativos. Mas a bilheteria é apenas parte da equação. Cada novo capítulo serve para fortalecer o ecossistema de marca – streaming, produtos, parques temáticos, spin-offs. Quando “O Acerto Final” impulsionou em 337% as vendas digitais dos filmes anteriores da franquia “Missão: Impossível”, ficou claro que o cinema ainda pode ser um motor para o legado.
A grande questão é: esse modelo é sustentável? Com mais megaprojetos no horizonte (“Quarteto Fantástico” é o próximo da fila), Hollywood caminha entre o desejo de escalar os custos e a necessidade de realismo econômico. Para analistas, o público ainda busca escapismo cinematográfico como alternativa mais barata a viagens. Mas eles alertam: quando um filme precisa de US$ 900 milhões só para se pagar, até o sucesso parece fracasso.
Mesmo assim, para cada alerta, há um exemplo como “Jurassic World: Recomeço” – prova de que reinventar-se é possível, e que a escala ainda tem impacto quando usada com inteligência. À medida que a era “Missão: Impossível” de Tom Cruise se encerra e “Jurassic World” abre um novo capítulo, uma verdade persiste no cenário arriscado de Hollywood: nesse negócio, o único risco maior do que gastar US$ 400 milhões é não gastar.