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Genealogias em disputa: o lugar da filosofia foucaultiana na atualidade

Redação Culturize-se

A filosofia de Michel Foucault permanece entre as mais influentes para pensar poder, sujeito, ética e resistência no mundo contemporâneo. No entanto, ela vive um momento de tensão: enquanto continua sendo apropriada tanto por movimentos emancipatórios quanto por forças conservadoras, o que se discute hoje é o modo como sua herança pode (e deve) ser reconfigurada por meio de um diálogo intercultural. É aí que entra o trabalho da filósofa alemã Marita Rainsborough, que insistiu em dois eixos críticos: primeiro, a necessidade de confrontar a filosofia ocidental (em especial Kant e Foucault) com tradições filosóficas africanas; segundo, a urgência de repensar subjetividade, estética e ética em contextos de poder que não se acomodam aos marcos meramente eurocêntricos.

Rainsborough chama atenção para como Foucault pode (e deve) ser lido fora do eixo França–Estados Unidos, numa leitura que capta não só o poder disciplinar, mas também as práticas de poder colonial, epistemologia da resistência e formas de subjetivação que se dão sob condições pós-coloniais. Em seu livro “Intercultural Thinking in African Philosophy: A Critical Dialogue with Kant and Foucault” (2024), ela propõe que filósofos africanos como Appiah, Mbembe, Gyekye, Odera Oruka, Wiredu e outros já fornecem leituras críticas que inserem o pensamento de Foucault em contextos em que história, memória e colonialidade operam como dispositivos de poder. Rainsborough sustenta que esses pensadores confrontam o universalismo implícito em muitas interpretações do poder foucaultiano, trazendo uma crítica sobre quem detém a voz para falar de resistência, e quais vidas são marginalizadas no discurso de liberdade.

Discurso, poder e subjetivação: da teoria foucaultiana clássica às leituras interculturais

A filósofa alemã
A filósofa alemã Marita Rainsborough

A filosofia foucaultiana original focalizava como saber/poder se entrelaçam, como as instituições (prisões, hospitais, asilos) funcionam, e como o sujeito é produzido por práticas discursivas, regimes de verdades e dispositivos biopolíticos. Autores como Judith Butler investem no conceito foucaultiano de “parrésia” (franqueza corajosa, verdade-ao-poder) para reconstruir formas de expressão que resistam às normatividades dominantes, especialmente no que tange à sexualidade e ao gênero. Outras correntes, como o “novo realismo” ou algumas aproximações críticas do pós-colonialismo, apontam limites em Foucault – por exemplo, sua pouca especificidade analítica sobre raça ou colonialidade, ou seu ceticismo em relação a fundamentos éticos universais.

Rainsborough trabalha nesse espaço de interseção. Ela busca manter a atenção foucaultiana ao poder e à história, mas também resgatar elementos éticos que podem escapar de leituras que o acusam de relativismo ou de impotência normativa. Por exemplo: sua comparação entre Kant e Foucault serve para evidenciar como ideias de universalismo ético, autonomia e moralidade, tão caras a Kant, não precisam ser descartadas, mas reinterpretadas, quando confrontadas com realidades culturais diversas. Ao mesmo tempo, ela aponta que o trabalho de subjetivação foucaultiano — ou seja, como os sujeitos são moldados por práticas discursivas e poder — ganha novos matizes quando visto através das lentes africanas ou latino-americanas, em que o colonialismo e a pós-colonialidade criam dispositivos de poder específicos que modificam a natureza da resistência e da ética.

Valor, crítica e implicações éticas

Há correntes contemporâneas que elogiam Foucault por seu diagnóstico do neoliberalismo, biopolítica e poder de normalização — veem nele uma lente indispensável para compreender vigilância digital, regimes de saúde pública (como no pós-pandemia), políticas identitárias, e a governamentalidade das emoções. Byung-Chul Han, por exemplo, aponta para como o poder hoje opera não mais tanto por disciplina visível, mas por autoexploração, pela competição, pela pressão ao desempenho, que termina por produzir subjetividades fragilizadas. Por outro lado, críticos levantam que Foucault, embora esclarecedor, pouco oferece em termos de proposta normativa robusta ou de valores universais para enfrentar opressões estruturais — especialmente aquelas ligadas a raça, colonialismo, desigualdade global — a menos que tais dimensões sejam acrescentadas por leituras pós-coloniais ou interculturais.

Rainsborough intervém nesse debate com força. Ela propõe que a filosofia foucaultiana contemporânea precisa ser expandida além da genealogia e das análises de poderes locais, incluindo ética, estética e afetos de modos que respeitem diferenças culturais sem relativismo cego. Em conferências como “Economia, Arte e Afeto: Economia do afeto e seus limites na concepção filosófica de Michel Foucault”, ela explora como os afetos podem produzir modos de resistência — mas também serem cooptados como dispositivos de poder. Ou seja: Rainsborough oferece uma filosofia que não deixa de diagnosticar, mas insiste em perguntar: quais práticas éticas, estéticas, discursivas podem constituir sujeitos capazes de liberdade, consciência crítica e responsabilidade em contextos desiguais de poder?

Foto: Reprodução/Internet

Implicações práticas: educação, saúde, política global

A atualidade exige que a filosofia foucaultiana seja aplicada não apenas como teoria acadêmica, mas como ferramenta prática, normativa e política. Na educação, por exemplo, a bru­tal realidade de currículos eurocêntricos, de silenciamento de epistemologias indígenas e africanas, mostra necessidade de acolher práticas de saber diversas. Esse é um tema central no pensamento de Rainsborough: o diálogo intercultural não é mera adição de vozes externas, mas mudança estrutural no modo de conceber sujeito, ética, valor do conhecimento.

Na esfera da saúde e das políticas pública de biopolítica, a noção foucaultiana de “dispositivo” é útil para pensar como regimes sanitários, vigilância, controle de comportamentos são implementados — especialmente em pandemias ou nas políticas de prevenção de doenças. Mas a crítica contemporânea — reforçada por leituras interculturais — sugere que não basta analisar; é preciso propor práticas éticas que incluam justiça social, redistribuição de poder, reconhecimento de traumas históricos e institucionalizados.

Em política global, a questão do poder contemporâneo passa por tecnologia, inteligência artificial, vigilância, colonialismo digital, desigualdades de recursos entre Norte e Sul, crises climáticas. Aqui, Foucault oferece concepções robustas, mas Rainsborough lembra que seu legado será tanto mais relevante quanto souber dialogar com teorias como de Walter Mignolo, Achille Mbembe, Homi Bhabha — que trazem à tona o que chamam de “colonialidade do poder”, práticas de conhecimento e poder que persistem mesmo após formalidades de liberdade ou independência nacional. Essa abordagem torna a filosofia foucaultiana menos uma doutrina fechada, mais um conjunto de ferramentas críticas que precisam ser tensionadas, adaptadas, reinventadas.

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