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"Lispectorante" conjectura sobre reinventar-se nas ruínas de Clarice Lispector

Redação Culturize-se

A obra de Clarice Lispector, uma das mais enigmáticas e influentes da literatura brasileira, ganha novas camadas de interpretação no cinema com “Lispectorante”, longa dirigido pela pernambucana Renata Pinheiro. Com estreia marcada para esta quinta-feira (8), o filme chega aos cinemas distribuído pela Embaúba Filmes e promete um mergulho sensorial no universo lispectoriano — dessa vez, pelas lentes de uma narrativa que flerta com a fantasia e a autoficção.

Protagonizado por Marcélia Cartaxo, que retorna ao universo de Clarice após sua consagrada interpretação de Macabéa em “A Hora da Estrela” (1985), o longa acompanha a trajetória de Glória Hartman, uma artista plástica madura enfrentando uma crise existencial e financeira. De volta ao Recife, sua cidade natal, Glória encontra nas ruínas da casa onde Lispector viveu na infância um ponto de partida para sua própria reconstrução emocional. Ali, no bairro da Boa Vista — um dos mais tradicionais e históricos da capital pernambucana —, a personagem se depara com cenas fantásticas que provocam um deslocamento entre o real e o imaginário, levando-a a revisitar suas memórias e desejos.

A casa em ruínas, espaço físico e simbólico da narrativa, funciona como metáfora tanto do descaso com o patrimônio cultural quanto da situação de Glória. Assim como o prédio, a artista também foi esquecida e abandonada, mas, ao vislumbrar as possibilidades contidas naquele espaço, redescobre em si mesma a sede por novas histórias. Essa sobreposição entre realidade e sonho é enfatizada pela estética do filme: imagens lisérgicas, câmera inquieta e sequências oníricas criam uma atmosfera em que os limites entre sonho, delírio e desejo se tornam difusos.

Renata Pinheiro, que divide o roteiro com Sérgio Oliveira, mantém a liberdade criativa e a experimentação visual já vistas em trabalhos anteriores como “Amor, Plástico e Barulho” (2015) e “Carro Rei” (2022). Embora não seja uma adaptação literal de nenhuma obra específica de Clarice, “Lispectorante” traz referências diretas a contos como “Restos de Carnaval” e ao romance “A Paixão Segundo G.H.”, além de incorporar citações da escritora ao longo da trama.

Foto: Divulgação

O filme propõe um diálogo íntimo com os temas centrais da obra de Lispector — a interioridade feminina, o questionamento da realidade e o enfrentamento da solidão. A escolha de Marcélia Cartaxo para o papel central reforça essa conexão. Sua atuação é poderosa e ancora o filme mesmo quando ele tergiversa.

Um experimento cinematográfico que une memória, história e imaginação, “Lispectorante” convida o público a uma jornada de autoconhecimento e reinvenção. Para admiradores de Clarice Lispector — e para aqueles dispostos a se deixar levar por um cinema que desafia as convenções narrativas —, o longa de Renata Pinheiro se apresenta como uma experiência sensorial e reflexiva, que dialoga tanto com o passado quanto com as inquietações contemporâneas.

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