Redação Culturize-se
Na Feira de Arte de Dallas, uma arma repousa dentro de uma redoma de vidro no estande da Galeria Tezukayama. A arma é um modelo usado pelas Forças Armadas dos EUA, exposto ao lado de um equivalente japonês mais antigo.
“Ela se despedaça se for tocada”, explica o diretor da galeria, Shinpei Okada, ao ser questionado sobre a escultura de Manabu Hasegawa — uma peça oca feita com papel e frotagem de lápis. Armas têm sido um tema recorrente na obra de Hasegawa há décadas, uma obsessão que começou no início dos anos 1980, quando ele viu um soldado ferido sob o viaduto de Ueno, ainda criança. Apesar do material frágil, suas esculturas parecem densas e carregadas, funcionando tanto como objetos quanto como metáforas. “Tivemos problemas no aeroporto”, acrescenta o diretor em entrevista ao The Art Newspaper.
Os estandes ao redor exibem obras abstratas, nus discretos, cenas domésticas íntimas e paisagens. Essas imagens, sem críticas explícitas, convidam à contemplação, permitindo que a mente divague. Ainda assim, as armas de Hasegawa permanecem no pensamento, sua presença impossível de ignorar.
Uma cidade de contrastes
As tensões fervilham sob a superfície. Recentemente, o procurador-geral do Texas, Ken Paxton, processou a cidade de Dallas, alegando que o Escritório de Assuntos Culturais proibiu ilegalmente armas de fogo em dois espaços de arte. Enquanto isso, legisladores estaduais debatem um projeto de lei que penalizaria aqueles que restringem o porte de armas em terrenos públicos — uma medida que pode afetar instituições como o Museu de Arte de Dallas (DMA), administrado pela cidade. A pergunta paira no ar: o direito de portar armas supera o direito à vida? Como já observou Anton Tchekhov, quando uma arma aparece em cena, em algum momento ela será disparada.
O Texas floresce como um celeiro cultural, sustentado por instituições sólidas, colecionadores privados e fortunas independentes. Mas também funciona como uma panela de pressão política. Censuras governamentais e intervenções policiais, como a apreensão de retratos nus de Sally Mann no Museu de Arte Moderna de Fort Worth, deixam cicatrizes duradouras. Apesar das obras terem sido devolvidas após a revogação da acusação de obscenidade, o episódio lançou uma sombra.
Essa sombra chegou até a palestra performática de Jade Guanaro Kuriki-Olivo, originalmente agendada para o DMA com um público de 300 pessoas. Após a controvérsia em Fort Worth, o evento foi transferido para a galeria Tureen, um espaço menor. Online, Kuriki-Olivo (também conhecida como Puppies Puppies) comentou que o caso de Mann foi citado como justificativa para a mudança.

Na Tureen, o público assiste a “Love, Jamie” (2024), documentário que traça a vida de Jamie Diaz, uma mulher trans que cumpriu prisão perpétua por roubo antes de encontrar redenção por meio da arte e da liberdade condicional. A mensagem esperançosa do filme — a emergência de Diaz como artista, sua família escolhida — não suaviza as duras realidades de ser uma pessoa trans no sistema prisional, especialmente no Texas, onde recentes leis contra pessoas trans geraram indignação.
Perto dali, no DMA, uma escultura de bronze de Kuriki-Olivo está nua sobre um pedestal rotulado “Mulher”, marcando seu retorno comovente a Dallas após 15 anos. Durante sua performance, ela se despe com calma e confiança, proferindo uma palestra sob holofotes verde-limão. Embora anunciada como performance, sua presença soa profundamente pessoal — um testemunho do espaço seguro que ela cria. Do lado de fora, seguranças circulam, lembrando as ameaças constantes enfrentadas por corpos trans. Aqui, a arte funciona tanto como bálsamo quanto como campo de batalha.
A cerca de dez quilômetros dali, na Dallas Invitational, a obra A Drowning Place (river), 2025, de Antonio Lechuga, retrata o Rio Grande em faixas de lã azul e verde. A peça faz referência a uma mãe e seus dois filhos que se afogaram ao tentar cruzar a fronteira para o Texas no ano passado. “Pode ser vista como trágica, mas também como esperançosa”, reflete Lechuga. “Um rio é onde a vida começa. Mas neste momento, é um lugar de afogamento.”
Nascido e criado no bairro Oak Cliff de Dallas, Lechuga cria suas obras com cobijas — cobertores encontrados nos lares mexicanos. “Eles guardam nossas vidas e histórias”, diz. Suas peças frequentemente retratam paisagens naturais carregadas de história, como A Friday in the Summer, a Friday Like Any Other, 2024, agora parte do acervo do DMA. A obra retrata o cruzamento onde, em julho de 2022, Lechuga foi pego em um tiroteio entre gangues. “Fui baleado duas vezes”, lembra. “Lembro de tudo.”
Após perder um rim e passar meses em recuperação, ele criou sua primeira obra pós-tiroteio: o cruzamento como ele o viu pela última vez. Um ano depois, revisitou a cena com um filtro vermelho em Everyday Since. No mesmo ano, o massacre em uma escola de Uvalde tirou 21 vidas. Em resposta, Lechuga produziu Flowers for the Living, uma série com 637 flores — uma para cada vítima de tiroteios em massa naquele ano. “Este buquê é para todos os afetados”, explica. “Também para os que ficaram para chorar.”
O Texas continua sendo um ponto crítico no debate sobre armas: celebrado por uns, condenado por outros. “Mas não é só o Texas”, enfatiza Lechuga. “Isso é um problema nacional.” O mesmo pode ser dito sobre os temas explorados por Hasegawa, Diaz e Kuriki-Olivo — violência, identidade e o direito de circular com segurança pelo mundo. “É global também”, vem a resposta. Ainda assim, essas histórias são profundamente pessoais, levantando questões urgentes: o que lembramos? O que esquecemos? A arte, ao testemunhar, tem o poder de moldar a resposta.