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Memória, montanhas e resistência: a arte em fluxo no Instituto Tomie Ohtake

Redação Culturize-se

Entre os dias 13 de junho e 3 de agosto, o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, será palco de um potente cruzamento entre arte, memória e justiça social. Em cartaz simultaneamente, as exposições Casa Sueli Carneiro em residência, Manfredo de Souzanetto – As montanhas e Manuel Messias – Sem limites oferecem ao público uma experiência plural, marcada pela diversidade de trajetórias, linguagens e perspectivas críticas. As três mostras se articulam como parte de um projeto curatorial que conecta arte contemporânea, memória política e reavaliação dos cânones históricos.

Essa programação também integra o IV Festival Casa Sueli Carneiro, que ocorre de 24 a 29 de junho com o tema “Memória Negra e Reparação em Afluência”, e se soma ao projeto Experiências Negras, iniciativa criada pelo Instituto Tomie Ohtake em 2018 para promover a inclusão de profissionais negras e negros no campo das artes e fomentar debates sobre as desigualdades estruturais presentes no setor cultural.

Casa Sueli Carneiro: arte como ferramenta de resistência

A exposição Casa Sueli Carneiro em residência é resultado de um processo formativo iniciado em 2024, dedicado exclusivamente a pessoas negras. O projeto contou com a curadoria de Luanda Carneiro Jacoel, diretora do Legado da Casa Sueli Carneiro, e com orientação das pesquisadoras Taina Silva Santos e Ionara Lourenço. Durante a residência, os participantes tiveram acesso a oficinas, encontros teóricos, vivências e pesquisas orientadas pelo acervo da Casa Sueli Carneiro.

O resultado desse processo se materializa em sete projetos que abordam temas centrais para o pensamento crítico contemporâneo: feminismos negros na América Latina, o papel político das mulheres negras na cultura brasileira, ancestralidade, racismo estrutural, encarceramento, pedagogias decoloniais e práticas de resistência artística. Um dos destaques é Aparicências, instalação sonora criada por Liliane Braga (Ndembwemi), que ativa a oralidade como eixo de uma epistemologia negra ao promover um diálogo entre vozes ancestrais e o acervo documental da Casa.

Outro trabalho que chama atenção é Gẹ̀lẹ́dẹ́ – o drama e o cultivo de micro sociedades agrícolas, de Olaegbé (Jéssica Nascimento), instalação que combina dramaturgia e imagens com uma máscara cerimonial africana, criando um elo entre tradições africanas e o pensamento de Sueli Carneiro. Já Jogo do Bem-Viver, concebido por Agnis Freitas e Carolina Melo, propõe ao público uma experiência lúdica que estimula a reflexão sobre práticas políticas de mulheres negras.

A mostra ainda apresenta Entre a esquerda e a direita, continuo sambando, documentário experimental de Maria Júlia Petronilho sobre o protagonismo feminino negro nas escolas de samba paulistanas, e O Brigue de Bracuí, dirigido por Thiago Fernandes, Mario Guetto Groove e Fael Miranda, que revê episódios da escravidão brasileira por meio de narrativas contra-hegemônicas. Além disso, será lançado o Minidicionário Teórico Negro Brasileiro do Pensamento de Sueli Carneiro, de Gilvaneide de Sousa Santos, obra que propõe ser um recurso pedagógico para a implementação efetiva das leis 10.639/03 e 11.645/08 na educação.

Completando a exposição, Racismo estrutural e políticas públicas, de Daruê Zuhri, apresenta reflexões visuais e textuais sobre as desigualdades raciais no Brasil contemporâneo, em uma plataforma virtual. Esses trabalhos estão organizados ao lado de livros e documentos do Acervo Sueli Carneiro, selecionados por Ionara Lourenço e dispostos em diálogo com a biblioteca circulante da Casa Sueli Carneiro, disponível ao público temporariamente.

A exposição conta ainda com um programa público robusto, com oficinas, conversas e performances que potencializam as discussões propostas pelas obras. As atividades incluem encontros com nomes como Leda Maria Martins, Aldri Anunciação, Melvin Santana e Mari Queen, consolidando o caráter formativo e coletivo da proposta curatorial.

Residentes e mentoras da Casa Sueli Carneiro | Foto: Reprodução/Instagram

Manfredo de Souzanetto: a paisagem como memória e resistência

Em paralelo, o Instituto Tomie Ohtake também apresenta Manfredo de Souzanetto – As montanhas, primeira exposição institucional dedicada ao acervo mais íntimo e pessoal do artista mineiro. Com curadoria de Paulo Miyada, a mostra reúne cerca de 50 obras realizadas entre as décadas de 1970 e 1990, período decisivo para a consolidação da linguagem visual do artista.

Nascido em 1947 no norte do Vale do Jequitinhonha, Souzanetto cresceu cercado por montanhas, pedras e pigmentos terrosos, elementos que se tornariam centrais em sua produção. Mesmo após percorrer centros urbanos como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Paris e Juiz de Fora, o artista manteve um vínculo afetivo com as paisagens de sua infância. Essa relação se reflete em obras que transitam entre a pintura, a escultura e a intervenção paisagística.

Mais do que uma evocação geográfica, as montanhas de Souzanetto são memória viva, matéria crítica e metáfora do pertencimento. Como destaca Miyada no texto curatorial, “elas são memória atávica e pensamento junto da paisagem, articuladas de modo visual, material e cromático”.

A exposição também recupera o gesto político do artista, como na emblemática ação Olhe bem as montanhas, realizada ainda na juventude, que convidava as pessoas a um exercício de atenção e cuidado com os territórios naturais. Em tempos de crescentes ameaças ambientais, a obra de Souzanetto ganha novos contornos, convidando o público a repensar sua relação com o meio ambiente.

Manuel Messias: a arte nos limites da sobrevivência

A terceira exposição individual em cartaz, Manuel Messias – Sem limites, é dedicada à obra do xilogravurista sergipano Manuel Messias dos Santos (1945-2001). Curada por Marcus de Lontra Costa e Rafael Fortes Peixoto, a mostra apresenta cerca de 70 obras, percorrendo três décadas de produção do artista. É a primeira individual institucional dedicada a Messias, reconhecendo seu lugar na história da gravura brasileira.

Messias viveu uma trajetória marcada por adversidades. Negro, nordestino e oriundo da pobreza extrema, o artista se referia a si mesmo como alguém “sem limites”, alusão tanto à sua busca artística quanto aos desafios que enfrentou. A relação com a arte começou por meio de sua mãe, empregada doméstica em casas de intelectuais cariocas, o que lhe possibilitou frequentar cursos como o de Ivan Serpa no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Foto: Divulgação

A exposição reúne xilogravuras de diferentes fases, com destaque para as séries Fome e Loucura, que evidenciam a dramaticidade de sua linguagem gráfica, fortemente influenciada pelo expressionismo e pela literatura de cordel. Um dos achados recentes da pesquisa curatorial foi a série YUWW, álbum composto por um alfabeto visual inventado, cujos significados permanecem indecifrados desde sua criação nos anos 1960.

As obras mais maduras de Messias emergem na série Via Sacra, que reinterpreta episódios bíblicos sob uma ótica crítica e poética. Nos trabalhos finais, como os da série Your Life – M’fotogram, o artista entrelaça memória, autobiografia e referências à morte, em um inventário visual profundo e tocante.

“Esta exposição nasce da necessidade de reconhecimento e de inclusão definitiva de sua produção na escrita das tantas e tão plurais histórias da arte brasileira”, destacam os curadores, reafirmando a urgência de revisar as narrativas oficiais da arte no país.

Três exposições, um mesmo gesto: olhar para o invisível

As três mostras em cartaz no Instituto Tomie Ohtake propõem, cada uma à sua maneira, uma revisão dos modos de ver, criar e registrar a experiência no mundo. Se em Casa Sueli Carneiro em residência o olhar é lançado sobre a memória negra e as lutas por justiça social; em As montanhas, as obras de Souzanetto convidam a uma escuta atenta da paisagem como história viva. Já Sem limites resgata uma trajetória artística que foi mantida à margem, mas que carrega em sua poética uma força inquestionável.

Ao reunir esses três projetos, o Instituto Tomie Ohtake reafirma sua vocação como espaço de reflexão crítica e renovação do repertório da arte brasileira.

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