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John Mulaney resgata o risco do ao vivo em programa caótico na Netflix

Redação Culturize-se

John Mulaney, outrora celebrado por seu stand-up afiado e sua genialidade nos bastidores como roteirista do “Saturday Night Live”, se lançou corajosamente no mundo caótico e imprevisível dos talk shows noturnos. Após o sucesso peculiar de “Everybody’s in L.A.”, o experimento de seis episódios da Netflix transmitido ao vivo e centrado em aspectos hiper-específicos da cultura de Los Angeles, Mulaney está de volta com seu sucessor espiritual: “Everybody’s Live With John Mulaney”. A nova série de 12 semanas, que já garantiu duas temporadas pela Netflix, mantém muito do DNA irreverente do original, mas muda o foco de Los Angeles para algo mais abstrato — e, às vezes, mais sem direção.

A grande pergunta que paira sobre “Everybody’s Live” não é apenas se o programa é engraçado (às vezes é, às vezes não), mas se ele sabe o que quer ser. O próprio Mulaney tem sido autoconsciente em relação ao conceito — ou à falta dele. No evento “Next on Netflix”, ele brincou dizendo que o programa “nunca será relevante”, que vai ignorar todos os dados fornecidos pela Netflix, e que “não há absolutamente nada de novo” em sua proposta. Em vez disso, ele está “pegando vários elementos que outras pessoas já fizeram e misturando tudo fora de ordem, para parecer novo por padrão”.

Essa admissão é tão precisa quanto reveladora. Assim como Late Night de David Letterman nos anos 1980 — ou versões mais surreais da TV noturna como “The Eric Andre Show” ou “Between Two Ferns” —, “Everybody’s Live” desafia convenções. Com convidados aleatórios como Joan Baez, Michael Keaton e uma colunista financeira de San Francisco discutindo empréstimos entre amigos, até debatedores desconexos comentando sobre navios de cruzeiro e helicópteros, o programa de Mulaney é um monstro de Frankenstein costurado com velhos clichês, esquetes dadaístas e monólogos absurdos.

Se “Everybody’s in L.A”. encontrou inspiração e alma na sua especificidade — com episódios temáticos sobre coiotes, palmeiras ou até a perseguição do Bronco de O.J. Simpson —, o novo programa perde um pouco desse alicerce. Em seu melhor momento, a primeira temporada equilibrava comédia e curiosidade, com Mulaney e seus convidados explorando esquisitices reais de L.A. com interesse genuíno. Agora, sem esse foco, por exigência da Netflix de “não ser tão sobre Los Angeles”, “Everybody’s Live” frequentemente parece à deriva. Os episódios temáticos carecem da intimidade dos temas centrados em LA e às vezes caem em uma espécie de caos sem propósito.

Foto: Divulgação/Netflix

Essa falta de clareza pode esvaziar o charme do programa. Alguns momentos — como uma paródia afetuosa de Brian De Palma ou o retorno divertido dos ajudantes Richard Kind e do robô errante Saymo — mantêm o brilho excêntrico do programa original. Mas outros segmentos, como uma homenagem militar ao rapper Silkk the Shocker, soam melhor no papel do que na tela. O programa às vezes parece mais um mural de ideias de uma sala de roteiristas do que uma experiência coesa para o público.

Mulaney, sempre um comediante meticuloso, talvez não esteja em seu melhor formato ao vivo e sem estrutura. Ele prospera em formatos com regras — esquetes do SNL, monólogos de premiações, especiais de uma hora — e “Everybody’s Live” exige que ele abandone essas cercas. Piora o fato de que grande parte da improvisação vem dos debatedores, que frequentemente parecem sem saber como reagir. Em um episódio, a composição caótica da mesa resulta em interações constrangedoras; em outro, comediantes experientes como Nick Kroll e Quinta Brunson mal conseguem manter o controle. As risadas são reais, mas às vezes soam cruéis, vindo à custa de convidados confusos ou de ligações inesperadas. Uma das maiores gargalhadas da noite foi quando Mulaney desligou na cara de alguém no meio de uma história — o que não é exatamente uma vibe acolhedora.

Ainda assim, apesar de toda sua bagunça, “Everybody’s Live” captura algo raro na TV: risco. Há uma sensação de que ninguém sabe exatamente o que vai acontecer a seguir — nem mesmo Mulaney. Essa imprevisibilidade, essa sensação de assistir alguém construindo os trilhos enquanto o trem já está em movimento, dá ao programa uma eletricidade peculiar. Mesmo quando os resultados são mistos, há um magnetismo estranho. Como no início de Letterman, “Everybody’s Live” talvez esteja nos ensinando como assisti-lo.

Mulaney não está limitado a apenas ao streaming. O comediante anunciou recentemente uma nova turnê de stand-up, John Mulaney: Mister Whatever, que começa em junho e vai até dezembro, passando por 31 cidades na América do Norte. O retorno ao stand-up serve como lembrete de onde os instintos cômicos de Mulaney brilham mais: sozinho com um microfone, comandando a plateia com precisão cirúrgica e entrega refinada.

Se Everybody’s Live vai se tornar um marco fixo da TV noturna ou apenas mais um capítulo excêntrico na carreira em evolução de Mulaney, ainda não se sabe. Mas, goste-se ou não, o programa não está tentando reinventar a roda — está alegremente desmontando-a, peça por peça, ao vivo na televisão.

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