Reinaldo Glioche
Em uma iniciativa inédita no país, a distribuidora Sato Company celebra quatro décadas de atuação no mercado audiovisual com a realização de um festival que promete emocionar os fãs da animação japonesa: a retrospectiva completa dos filmes do Estúdio Ghibli. Em parceria com o lendário estúdio japonês, que também completa 40 anos em 2025, a distribuidora traz para os cinemas brasileiros uma seleção de clássicos da animação que marcaram gerações, muitos deles exibidos pela primeira vez em formato restaurado nas telonas nacionais.
A Mostra Ghibli – Parte 1 estreia em setembro e reúne 14 longas-metragens assinados por nomes como Hayao Miyazaki e Isao Takahata, dois dos principais nomes por trás da estética e da filosofia poética que definem o estúdio. A retrospectiva se estenderá em duas etapas, totalizando 22 filmes exibidos até o final do ano.
Um mergulho na memória afetiva
Entre os títulos selecionados para essa primeira leva, estão produções que moldaram o imaginário de milhões de espectadores em todo o mundo. O destaque natural é “A Viagem de Chihiro” (2001), obra-prima de Miyazaki que venceu o Oscar de Melhor Animação e foi recentemente eleita pelo The New York Times como o 9º melhor filme do século XXI. A jornada da menina Chihiro por um universo mágico e repleto de metáforas sobre amadurecimento e identidade é considerada um marco na história da animação mundial.
Outro clássico imperdível é “Meu Amigo Totoro” (1988), uma delicada fábula sobre infância e natureza que introduziu o icônico espírito da floresta Totoro, símbolo máximo do estúdio. O filme retrata com ternura o cotidiano de duas irmãs que se mudam para o campo, aproximando-se de realidades espirituais e emocionais com sensibilidade e lirismo.
Mais sombrio e igualmente comovente, “Túmulo dos Vagalumes” (1988), dirigido por Isao Takahata, aborda o impacto da Segunda Guerra Mundial sob a perspectiva de dois irmãos tentando sobreviver após um bombardeio. Reconhecido como um dos filmes mais devastadores já produzidos em animação, o longa evidencia a potência dramática e humanista das produções do Ghibli.
O cinema fantástico também está bem representado com “O Castelo Animado” (2004), outra criação de Miyazaki que mistura crítica política, amor e magia em um universo visualmente exuberante. Na mesma linha, “Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar” (2008) atualiza a fábula da Pequena Sereia para falar de ecologia e afeto infantil, numa animação vibrante que cativa públicos de todas as idades.
Obras menos conhecidas, mas igualmente inventivas, também fazem parte da seleção. É o caso de “Meus Vizinhos os Yamadas” (1999), que aposta em um estilo visual aquarelado para retratar o cotidiano de uma típica família japonesa com humor e afeto, e “Pom Poko” (1994), sátira ecológica sobre guaxinins mágicos que lutam contra a destruição de seu habitat.
A mostra inclui ainda títulos como “Memórias de Ontem” (1991), reflexão madura sobre escolhas e lembranças; “Eu Posso Ouvir o Oceano” (1993), romance juvenil centrado em relações interpessoais; “Sussurros do Coração” (1995), que mescla música e amadurecimento; “Porco Rosso” (1992), aventura nostálgica com aviões e dilemas morais; “Vidas ao Vento” (2013), cinebiografia poética de um engenheiro de aviões, e o adorável “O Serviço de Entregas da Kiki” (1989), sobre uma jovem bruxa que busca independência em uma cidade desconhecida.
Animação como patrimônio cultural
A curadoria da mostra, construída em colaboração com a equipe do Estúdio Ghibli, busca oferecer ao público brasileiro uma experiência cinematográfica rara: assistir a essas produções no formato ideal para o qual foram pensadas. Em tempos de telas pequenas e algoritmos acelerados, ver essas obras em uma sala escura, com projeção de qualidade e som envolvente, resgata o encantamento do cinema como ritual coletivo.
“Esse festival é uma celebração de tudo o que o Ghibli representa: respeito à infância, à natureza, à imaginação e à diversidade de sentimentos humanos”, afirmou Nelson Sato, em comunicado à imprensa. “É também um agradecimento ao público brasileiro que, há quatro décadas, acolhe essas histórias com o coração aberto.”
Um presente para fãs antigos e novos
Para os fãs de longa data, a mostra representa uma oportunidade de rever seus filmes favoritos com toda a riqueza visual que o Ghibli proporciona. Para novos espectadores, é uma porta de entrada privilegiada para um universo onde não há antagonismos fáceis nem narrativas aceleradas: há, sim, tempo para contemplar, refletir e se emocionar.
A expectativa da Sato Company é de que a primeira etapa da mostra desperte uma nova onda de interesse pelas animações autorais e reafirme a importância da arte japonesa na formação cultural das novas gerações brasileiras. As datas e locais das exibições serão divulgados em breve pelas redes sociais da Sato Company e pelos canais oficiais de cinema.