Redação Culturize-se
O tempo pode até passar, mas Djavan continua a fazer dele música. Aos 75 anos e prestes a celebrar meio século de carreira, o cantor e compositor alagoano lançou nesta terça-feira (11) “Improviso”, seu 24º álbum de estúdio. Com 12 faixas — 11 inéditas e uma regravação —, o trabalho reafirma o lugar de Djavan entre os grandes artesãos da canção brasileira. Produzido, dirigido e arranjado pelo próprio artista, o disco é, segundo ele, resultado de um “fluxo contínuo”, um processo criativo que mistura descoberta e liberdade total.
No repertório, duas homenagens dão o tom afetivo e cosmopolita do projeto. Uma releitura de “O Vento”, parceria com Ronaldo Bastos eternizada por Gal Costa em 1987, e “Pra Sempre”, canção originalmente composta para Michael Jackson na época do lendário “Bad” (1987). “Meus filhos sempre insistiram para eu gravar essa música todos esses anos. Eu nunca quis, achava que não fazia sentido. Era só a melodia; a ideia era o Michael fazer a letra, se gostasse”, contou Djavan à Rolling Stone Brasil. “Agora, após tanta insistência, resolvi escrever a letra e gravei.”
Já “O Vento” presta tributo à cantora que mais gravou suas composições — foram 13 ao longo da carreira, entre elas “Açaí” e “Azul”. “Aproveitei e trouxe de volta uma canção bonita, que a Gal gravou lindamente; como tudo que ela gravava. Foi basicamente uma homenagem à minha querida Gal Costa”, disse o músico.
Mas “Improviso” vai além da reverência. Em entrevista a O Tempo, Djavan explicou que o título do álbum é também um conceito. “Antes de começar a escrever, o improviso é a reflexão da melodia, onde a base harmônica delimita o voo. Esse é um desafio que sempre persegui. E a palavra ‘improviso’, em um trabalho organizado como esse, soa dúbia, o que muito me agrada.” O jazz, diz ele, é uma das influências mais marcantes dessa abordagem — “assim como o samba, o rock e o baião”.
O disco, no entanto, não se fecha na experimentação musical. Djavan também aborda temas contemporâneos, como a guerra, em “Sonhar”, e as transformações das novas gerações, inspiradas na convivência com os netos, em “Falta Ralar!”. “Eles são criaturas infinitamente diferentes do que eu fui na idade deles. É um momento completamente diferente, e observando seus desejos e sentimentos surgiu essa música”, contou o cantor ao jornal mineiro.

A relação com o público também se renova. A faixa “Um Brinde” nasceu de uma interação digital. Djavan publicou a melodia nas redes e convidou os fãs a sugerirem versos. “O grande prêmio dessa iniciativa foi receber vozes lindas de meninos e meninas muito talentosos”, afirmou, ressaltando que vê nas redes tanto potencial de destruição quanto de descoberta artística. “Com ‘Um Brinde’, descobri um Brasil que continua profícuo em talentos.”
Em “Improviso”, o amor segue sendo o centro gravitacional — um tema inesgotável, que Djavan trata com a serenidade de quem o conhece por dentro. “O amor delimita todos os espaços por onde nossa vida vai circular”, refletiu à O Tempo. “Mesmo te levando a caminhos novos, é um risco que se corre o tempo todo para falar disso sem se repetir. É uma busca que tem um certo risco e prazer.”
Na contramão da pressa da indústria, o artista trabalha sem intermediários. À Rolling Stone Brasil, revelou que passou a dispensar produtores e arranjadores externos: “Chegou um momento no qual pensei: ‘Não quero mais produtor, nem arranjador’. Aí passei a fazer tudo.” Esse controle total sobre o processo, diz ele, é libertador — e garante que cada nota soe como uma extensão de sua própria voz.
Com “Improviso”, Djavan reafirma sua capacidade de dialogar com o presente sem perder o lirismo que o tornou atemporal. A canção que abre o disco, que leva o mesmo nome do álbum, sintetiza seu espírito criador. A dor e a beleza do ato de compor. “Exerço essa dor, digamos assim, mas é uma dor maravilhosa, que invariavelmente resulta em um momento musical muito bonito”, disse o músico. “Sou invadido de felicidade sempre que componho e por isso sempre vai ter o próximo momento.”
A celebração desse percurso já tem data para chegar aos palcos. Em maio de 2026, Djavan estreia a turnê Djavanear 50 anos – Só Sucessos no Allianz Parque, em São Paulo. Depois, o espetáculo segue por grandes arenas do país, incluindo Belo Horizonte, em julho, e o Rio de Janeiro, em agosto. Se há algo que o tempo não mudou, é a certeza de que Djavan continua improvisando, e encantando, como ninguém.