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Yuval Harari alerta para riscos da inteligência artificial em cenário de desinformação

Redação Culturize-se

A burocracia precisa de um bom branding.” A frase, que poderia soar como uma provocação de publicitário, foi dita por Yuval Noah Harari, historiador israelense e autor de “Sapiens”, “Homo Deus” e “21 Lições para o Século 21“. Ela surgiu como resposta a uma pergunta sobre como o mundo poderia recuperar a confiança em instituições que hoje parecem mais frágeis do que nunca.

Harari esteve em São Paulo no último fim de semana para participar da prévia do SP2B – São Paulo Beyond Business, megafestival de negócios, criatividade e inovação que será oficialmente lançado em 2026. O historiador falou no Auditório do Ibirapuera, em palestra mediada por Pedro Bial, e ainda participou de um encontro fechado com CEOs e executivos de marketing. O tom de suas falas foi ao mesmo tempo filosófico e urgente: a humanidade precisa reaprender a confiar em si mesma antes de entregar seu destino às máquinas.

Autor de obras que analisam a trajetória do ser humano a partir da construção de narrativas, Harari reforçou sua tese central: foi a capacidade de contar histórias compartilhadas e de criar confiança entre estranhos que permitiu ao homo sapiens dominar o planeta. O dinheiro, lembrou ele, é o maior exemplo: não passa de um pedaço de papel ou um número numa tela, mas funciona porque todos acreditam em seu valor.

“Instituições são sistemas enormes e burocráticos que não conseguimos conhecer. Construir confiança nas instituições é construir confiança na burocracia”, disse. Em tom quase utópico, sugeriu que artistas e comunicadores poderiam ajudar a “recontar a história da burocracia”, destacando não apenas seus entraves, mas também seus benefícios: “É muito fácil produzir um programa de TV sobre os horrores burocráticos. É muito mais difícil construir uma boa história sobre como o sistema burocrático de um hospital salva milhares de vidas todos os dias.”

Esse olhar ganha relevância no contexto atual de erosão da confiança no multilateralismo e na ciência, ao mesmo tempo em que cresce a aposta em soluções algorítmicas. Para Harari, o risco está justamente em transferir para as inteligências artificiais a capacidade que mais nos define como espécie: criar narrativas e cooperar em larga escala.

A “inteligência alienígena”

Na palestra com Pedro Bial, Harari enfatizou que o termo “inteligência artificial” pode ser até enganoso. “A IA não é apenas automação. É um agente independente, capaz de aprender e evoluir por conta própria, de tomar decisões e inventar novas ideias sozinho”, explicou. Por isso, prefere chamá-la de “inteligência alienígena” – algo que não é humano, opera em linhas inorgânicas e segue lógicas próprias.

Essa inteligência não humana, segundo ele, já demonstra capacidade de mentir, manipular e inventar estratégias em campos tão diversos quanto finanças, religião ou guerra. O problema central é a imprevisibilidade: não sabemos o que acontecerá quando milhões de agentes de IA interagirem com humanos – e, pior, entre si.

“Se a humanidade estiver dividida, a IA vai fugir do nosso controle e pode nos escravizar ou até nos aniquilar”, alertou.

Foto: Reprodução/Internet

O sistema financeiro como laboratório da crise

Para ilustrar, Harari recorreu ao sistema financeiro. “Um fazendeiro produz maçãs, um carpinteiro produz móveis. E os bancos? Eles produzem confiança. Confiança entre estranhos de que posso aplicar meu dinheiro aqui e mandar para o outro lado do mundo”, disse.

O avanço das criptomoedas, como o bitcoin, seria uma prova de que as pessoas confiam mais em algoritmos do que em instituições humanas. “Eles acreditam que os humanos vão enganar e manipular, mas que os algoritmos não”, afirmou.

A tendência, segundo ele, é que a complexidade se torne inalcançável. Hoje já é difícil para a maioria das pessoas compreender o funcionamento do sistema financeiro global. Em breve, mesmo os especialistas estarão cegos diante da velocidade e da sofisticação das operações conduzidas por IAs. “Em cinco ou dez anos, o número de pessoas que entendem o sistema financeiro será zero”, vaticinou.

Nesse cenário, o risco de um colapso não é apenas possível, é inevitável. “Um dia vai haver um crash e nenhum humano da Terra será capaz de dizer o que raios está acontecendo.”

Competição versus cooperação

O grande dilema, na visão do historiador, está na lógica que conduz o desenvolvimento tecnológico. As principais lideranças do setor reconhecem os riscos – de Sam Altman a Elon Musk, todos já falaram em extinção da humanidade como possibilidade real. Ainda assim, seguem acelerando.

“Quando você pergunta por que não desaceleram, eles respondem: porque temos competidores. Se nós pararmos e outros países não pararem, eles ganham a corrida. Eles vão mandar no mundo. E eles são os maus, nós somos os bons. Você fala com o competidor, e ele diz a mesma coisa. Isso garante o pior cenário”, relatou Harari.

A única saída seria adotar uma lógica cooperativa e não apenas competitiva no desenvolvimento da IA. Mas o historiador não se mostra otimista. Para ele, líderes políticos e governos estão mais empenhados em construir fortalezas – físicas, ideológicas e militares – do que em fomentar a cooperação global. Citou Donald Trump, Xi Jinping, Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu como exemplos de líderes que reforçam divisões, em vez de pontes.

Com armas nucleares, a humanidade já convivia com o risco de destruição em massa. O que muda agora, segundo Harari, é que há um “cardápio de possibilidades de autodestruição”. Desde crises financeiras incontroláveis até guerras conduzidas por inteligências artificiais autônomas, a margem de risco cresce de forma exponencial.

“Não vou te dizer que é muito provável, mas é possível. E está se tornando cada vez mais possível. Até o fim do século, haverá bilhões de agentes de IA agindo independentemente de nós, ocupando governos, exércitos e empresas. Que relações existirão entre IAs e humanos? Depende do que fizermos agora”, disse.

Embora as análises de Harari soem muitas vezes apocalípticas, ele também aponta caminhos. O primeiro é coletivo: reconstruir confiança entre países, empresas e cidadãos. O segundo é individual: cultivar a empatia e a interpretação positiva.

Segundo ele, a ascensão de líderes populistas nos últimos anos se deve em parte à crença generalizada de que todos os humanos são manipuladores e traiçoeiros. “É um engano”, disse. “A maioria das pessoas realmente se importa com a verdade e com os outros. Você não é tão especial assim.”

Como exercício prático, sugeriu que, diante de uma mensagem ambígua – seja numa rede social ou numa conversa cotidiana –, o indivíduo se esforce para escolher a interpretação mais positiva, até que tenha provas concretas de má intenção. “É apenas um exemplo de como podemos começar a mudar a atmosfera apenas com as nossas mentes.”

O uso pessoal da IA

Questionado sobre como lida, no dia a dia, com ferramentas de IA como o ChatGPT, Harari revelou uma estratégia simples: usar sem ser usado. Ele recorre à tecnologia em campos que domina, como pesquisas históricas, para acelerar a coleta de informações. Mas evita confiar quando o assunto foge de sua expertise. “Em áreas que eu não entendo nada, eu serei muito, muito cuidadoso em confiar apenas na IA. Porque lá eu estou completamente rendido.”

As falas de Harari em São Paulo ecoam um alerta que ele repete em seus livros e palestras pelo mundo: o destino da humanidade dependerá da capacidade de reconstruir a confiança – entre nós e em nossas instituições – antes de delegar nossas escolhas a inteligências não humanas.

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