Reinaldo Glioche
O longa-metragem “Entramas”, dirigido e roteirizado por Justino Vettore, projeta o cinema tocantinense no cenário internacional ao integrar a programação do Bogura International Film Festival, realizado em Bangladesh. O evento reúne produções de 32 países e marca um passo relevante para a circulação internacional do audiovisual produzido fora do eixo Sul-Sudeste brasileiro. Viabilizado com recursos da Lei Paulo Gustavo (LPG), o filme reforça o papel das políticas públicas culturais na descentralização da produção audiovisual e na ampliação do alcance de narrativas regionais.
Ambientado no universo do teatro mambembe, “Entramas” presta homenagem às artes cênicas e à resistência de artistas itinerantes que, historicamente, sustentam a formação cultural de diferentes gerações. A trama acompanha uma trupe familiar em meio a relações afetivas, conflitos e escolhas individuais, articulando camadas narrativas que dialogam com temas universais a partir de uma perspectiva profundamente enraizada no território tocantinense.
Segundo Justino Vettore, a obra nasce de uma experiência pessoal. “Eu conheci o teatro pelo audiovisual, ainda criança, no interior, antes mesmo de pisar em um palco. ‘Entramas’ é quase uma devolutiva àquilo que me fez artista. É uma homenagem aos artistas de teatro que resistem e fazem brotar as primeiras narrativas estéticas na vida de muitos de nós”, afirma o diretor. O título do longa sintetiza essa proposta simbólica ao costurar múltiplas “tramas”, com destaque para as relações intergeracionais e a ideia de que todos são, em algum momento, atores e diretores de suas próprias vidas.
A seleção do filme para um festival internacional realizado no sul da Ásia representa um marco para o audiovisual tocantinense, especialmente por se tratar de uma produção realizada no estado mais jovem do país. Para Lara Faez, assessora de Gabinete da Secretaria de Cultura do Tocantins, a exibição internacional tem peso simbólico e estratégico. “Mostrar o Tocantins, seus cenários, o bioma e a cultura local para outros países é um marco para o cinema tocantinense”, destaca. Na avaliação dela, a trajetória do filme reafirma o potencial criativo do estado e amplia a visibilidade de suas expressões culturais no exterior.

O diretor também ressalta o diálogo cultural entre territórios distintos. “Somos de solos muito ricos culturalmente. Levar um filme feito no Tocantins para o sul da Ásia mostra que nossas histórias interessam ao mundo e que podemos exportar o melhor de nós enquanto brasileiros”, afirma.
“Entramas” foi desenvolvido inicialmente com recursos da Política Nacional Aldir Blanc e posteriormente contemplado pela Lei Paulo Gustavo, fator decisivo para sua concretização. De acordo com Lara Faez, os resultados da LPG no Tocantins já são expressivos. “Foram aprovados seis projetos de longa-metragem, o que trouxe amadurecimento para a cadeia do audiovisual local e possibilitou a realização de produções de uma forma que não ocorria há muitos anos”, explica. O investimento permitiu filmagens em locações no próprio estado e a contratação de profissionais locais, contribuindo para a consolidação do setor.
No elenco, a atriz Amanda Nobre celebra a estreia no audiovisual em um projeto realizado integralmente no Tocantins. Já a veterana Cleuda Milhomem destaca o caráter coletivo da conquista. “Hoje vemos um filme feito no Tocantins, com identidade própria e alcance internacional. Isso é reconhecimento coletivo”, afirma. Após a exibição no festival, “Entramas” segue inscrito em mostras nacionais e internacionais e busca ampliar sua distribuição, com o objetivo de chegar às salas de cinema brasileiras e, posteriormente, a plataformas de streaming.