Redação Culturize-se
A obra “Ensaios Sobre a Venezuela: Subdesenvolvimento com abundância de divisas”, organizada a partir de manuscritos, artigos e entrevistas inéditas de Celso Furtado, oferece uma análise histórica e econômica do caso venezuelano a partir da sua experiência como técnico da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) em 1957. Furtado revela, em suas reflexões, como o predomínio do petróleo — um recurso natural em abundância — criou uma estrutura econômica que favoreceu um excedente externo permanente, mantendo a taxa de câmbio em níveis desfavoráveis à diversificação produtiva e limitando a absorção de mão de obra fora do setor petrolífero. Essa combinação produziu um “subdesenvolvimento com abundância de divisas”, no qual o setor exportador moderno pouco contribuía para a modernização sistêmica da economia venezuelana.
Na atualidade, esse diagnóstico histórico tem ressonância direta com a grave convulsão político-social que a Venezuela enfrenta após a deposição de Nicolás Maduro no começo do ano; evento que marca um ponto de inflexão dramático na trajetória política do país. Em uma operação militar liderada pelos EUA, Maduro foi capturado e levado ao país para responder a acusações de narcotráfico, desencadeando uma turbulência institucional imediata na Venezuela e na região.
A sucessão política pós-Maduro ficou a cargo de Delcy Rodríguez, vice-presidente que assumiu como presidente interina, segundo decisões sustentadas pelo Tribunal Supremo de Justiça venezuelano, que evitou a convocação imediata de novas eleições. Essa transição preserva a continuidade do chavismo e revela os desafios de uma saída democrática estável em um contexto de profundas divisões internas e pressões externas.

O panorama social imediato é de incerteza e risco. Há relatos de pressões paramilitares, grupos armados e tensões nas fronteiras, refletindo a fragilidade institucional e o risco de um vácuo de poder converter-se em violência difusa. Cientistas políticos apontam que a interferência militar externa e os conflitos de grupos armados ainda não plenamente subordinados ao novo governo podem complicar qualquer tentativa de estabilização a médio prazo.
A releitura de Furtado de décadas anteriores — que já identificava as limitações estruturais da economia venezuelana — ajuda a iluminar por que, após décadas de gestão revolucionária e autoritária, o país se encontra hoje em uma encruzilhada. A dependência crônica do petróleo, apontada por Furtado como um fator de estagnação produtiva e exclusão econômica, acabou por se transformar, ao longo de sucessivos governos de Chávez e Maduro, em um ponto de vulnerabilidade política e social. O colapso dos rendimentos petroleiros, exacerbado por sanções internacionais e má gestão, contribuiu para um declínio econômico profundo que alimentou migração em massa, descontentamento popular e rivalidades internas.
Na fase contemporânea, esses fatores se manifestam simultaneamente. A crise econômica tornou-se humanitária, com milhões de venezuelanos migrando para outros países, Brasil inclusive, e a população sobrevivendo sob hiperinflação e escassez de serviços básicos. A captura de Maduro e a tentativa externa de “reconstrução” do país em torno de interesses estratégicos — notadamente do setor petrolífero — intensificam debates críticos sobre soberania, democracia e legitimidade.
Assim, o livro de Furtado não é apenas um relato histórico, mas uma lente teórica para compreender as raízes de uma crise que, hoje, ultrapassa os limites nacionais e repercute em toda a América Latina. A obra convida a refletir sobre como escolhas econômicas estruturais moldam trajetórias sociopolíticas e como, em contextos de riqueza natural mal administrada, as tensões sociais podem culminar em rupturas políticas de amplo impacto regional.