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"Desejo Negativo" usa teoria queer para questionar lógicas de reprodução social

Redação Culturize-se

A galeria Martins&Montero inaugura nesta semana a exposição coletiva “Desejo Negativo”, com curadoria da artista Jota Mombaça. A mostra reúne três artistas de gerações distintas – Hudinilson Jr., Bruna Kury e Tetê – para investigar como a teoria queer pode questionar as lógicas de reprodutibilidade que sustentam estruturas hegemônicas, coloniais e normativas da sociedade contemporânea.

A proposta curatorial parte de uma compreensão expandida do conceito de reprodução: não apenas como processo biológico, mas como princípio que perpetua formas impostas de existir. Mombaça propõe um “raio negativo” lançado sobre o presente; expressão que evoca simultaneamente o desejo de destruição do mundo estabelecido e a interrupção da recorrência de padrões opressivos.

O ponto de partida da exposição é a obra de Hudinilson Jr., figura fundamental da arte brasileira que transformou o corpo, a cópia e o cotidiano em territórios de experimentação. Sua relação singular com o xerox e a xerografia criou uma poética da reprodução desviada, na qual distorce, desmonta e reencena a própria imagem.

A curadoria estabeleceu conexão íntima com o trabalho do artista através de uma visita ao seu apartamento-ateliê, espaço ainda impregnado por sua presença. A exposição busca reimaginar esse ambiente através de uma abordagem sensível, explorando acúmulos, assimetrias e camadas de vida que se sobrepõem à investigação dos limites entre corpo e espaço.

Diálogos entre Gerações

Ao lado de Hudinilson Jr., a mostra apresenta duas artistas contemporâneas cujos trabalhos compartilham inquietações sobre o mundo e sua reprodução compulsória. Bruna Kury, artista carioca que integrou coletivos como o Coiote, tensiona os regimes de autoria e poder através de colaborações e coletividades. Sua produção – que inclui zines, frases contestatórias e gestos táticos – transforma a reprodutibilidade em campo de disputa estética e política, criando alianças com corpos em dissidência.

A artista paraense Tetê opera entre poesia visual e fotografia, construindo poemas-diagramas e publicações impressas e digitais que funcionam como mapas afetivos. Seu trabalho desmonta a linearidade do sentido, atravessando linguagem, imagem e o desejo de reescrever o mundo desde sua fratura.

O elo entre os três artistas manifesta-se num movimento que a curadoria define como antissocial: a recusa do pacto com uma sociedade que exclui, normatiza e corrige. Suas obras expressam o desejo de que o mundo “se desfaça” – ou ao menos deixe de se repetir nos mesmos moldes. Trata-se de um desejo negativo e vital: não pelo fim em si, mas pelo que pode emergir a partir dessa ruptura.

Paradoxalmente, as práticas artísticas reunidas na exposição recorrem justamente às técnicas de reprodução: cópia, digital, colagem, fotografia. Neste contexto, porém, a reprodutibilidade não se reafirma como princípio normativo, mas é apropriada como fissura e espaço de reconfiguração. As obras não negam a repetição, mas a sabotam internamente, reinventando seus contornos e possibilidades. Um gesto que é simultaneamente técnico e político.

Fotos: Divulgação

Com trajetória que entrelaça performance, poesia e teoria crítica, Jota Mombaça concebe a exposição como um ensaio visual sobre os limites do presente e as possibilidades de sua dissolução. A proposta curatorial cria um espaço de fricção entre fim e porvir, convocando imagens, gestos e práticas que antecipem o que pode surgir quando estruturas estabelecidas colapsarem.

“Desejo Negativo” não se limita a imaginar o colapso do mundo tal como foi estruturado. A exposição posiciona-se nesse intervalo entre ruína e reinvenção, especulando que o mundo pode não continuar da mesma forma – e apostando que isso represente uma oportunidade. Trata-se de um exercício de recusa e invenção que mantém aberta a questão: o que emerge depois, quando recusamos as formas impostas de existir?

A mostra propõe, assim, não uma negação estéril, mas uma abertura radical para imaginar futuros possíveis fora das lógicas de reprodução e normatização que caracterizam o mundo hegemônico contemporâneo.

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