Redação Culturize-se
Rodrigo Teixeira há muito tempo aperfeiçoou a arte de estar em todos os lugares sem jamais parecer ocupar o centro. Há mais de uma década, o produtor brasileiro à frente da RT Features vem moldando silenciosamente o que é o cinema autoral contemporâneo, atravessando continentes, orçamentos e sensibilidades. Seu currículo se parece menos com um plano de carreira e mais com um mapa da cinefilia moderna: de marcos do cinema independente americano (“Frances Ha”, “A Bruxa”) e sucessos artísticos de alcance global (“Me Chame Pelo Seu Nome”, “O Farol”) a experimentações de vanguarda (“The Human Surge”), colaborações de prestígio com Martin Scorsese e até exceções em escala de estúdio, como “Ad Astra”, de James Gray. A influência de Teixeira é difusa justamente porque é discreta.
Em Nova York para auxiliar Gray nas etapas finais de pós-produção de “Paper Tiger”, a terceira parceria entre os dois, Teixeira deu uma entrevista reveladora ao site The Film Stage e com a franqueza de quem não tem nada a provar e muito a construir. O filme, estrelado por Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller, é um dos vários projetos de peso que convergem no que promete ser o período mais expansivo da história da RT Features. Além de “Paper Tiger”, a adaptação de “Zero K”, de Don DeLillo, dirigida por Michael Almereyda, se prepara para entrar em produção; o aguardado retorno de Brian De Palma, “Sweet Vengeance”, finalmente começa a ser filmado; e ao menos outros cinco filmes com participação da produtora devem estrear em 2026. Entre os primeiros a ganhar visibilidade está “Isabel”, dirigido por Gabe Klinger, que será exibido na seção Panorama do Festival de Berlim — um terreno familiar para Teixeira, que já lançou ali “Frances Ha” e “Me Chame Pelo Seu Nome”.
Apesar dessa escala, a autoimagem de Teixeira permanece deliberadamente modesta. Ele se define, antes de tudo, como espectador. Sua cinefilia é descrita com rigor quase monástico: sessões de repertório no Metrograph e no Film Forum, projeções caseiras ao amanhecer, filmes vistos em trânsito entre continentes. Clássicos e obras contemporâneas coexistem sem hierarquia. Para Teixeira, não há diferença substantiva entre revisitar “O Sequestro do Metrô” e descobrir um cineasta estreante — ambos fazem parte do mesmo contínuo de alfabetização cinematográfica.
O declínio do cinema americano
Essa alfabetização, no entanto, se transformou também em crítica. Teixeira é direto ao apontar o que vê como uma estagnação criativa no cinema americano. Para ele, o problema não é falta de talento, mas de liberdade. Tendo crescido sob uma ditadura militar no Brasil e produzido “Ainda Estou Aqui”, filme vencedor do Oscar sobre esse período, Teixeira é especialmente sensível aos limites impostos à expressão artística. Ele argumenta que as atuais estruturas de financiamento nos Estados Unidos — dominadas por conglomerados avessos ao risco e plataformas de streaming — desencorajam filmes que confrontem o poder político ou encarem realidades profundamente incômodas. Como consequência, ele se vê retornando aos clássicos americanos de épocas em que dissenso e crítica não eram entraves, mas motores criativos.

Em contraste, Teixeira identifica vitalidade no cinema contemporâneo produzido fora dos EUA. Filmes europeus e asiáticos exibidos em grandes festivais, afirma, lidam de forma direta com complexidades emocionais, políticas e sociais justamente por contarem com estruturas de financiamento público e operarem fora da órbita do Vale do Silício e de Wall Street. Não é coincidência, sugere, que muitos dos filmes mais ousados da atualidade não sejam americanos — nem que produtores como ele estejam cada vez mais orientados a colaborações internacionais.
Isso não significa desprezo pelos cineastas americanos. James Gray, insiste Teixeira, é uma exceção rara: um diretor ainda capaz de realizar filmes intimistas e enraizados na experiência da classe trabalhadora, sem pirotecnia estética. “Paper Tiger”, ambientado nos Estados Unidos dos anos 1980, é descrito não como uma tese política, mas como uma história profundamente pessoal sobre fraternidade, família e lealdade, estruturada como um thriller. Seu poder, segundo Teixeira, está na contenção: locações reais, trilha mínima, atuações que privilegiam a verdade emocional em detrimento do espetáculo. Ele demonstra admiração especial pelo trabalho de Johansson, que considera o mais marcante de sua carreira, e compara a presença de Teller à de um James Caan dos anos 1970. Gray, diz ele, está fazendo “pequenos” filmes americanos num momento em que quase ninguém mais tenta.
Esse ethos se estende a “Isabel”, uma produção brasileira modesta que Teixeira vê como um novo caminho para o cinema nacional. Dirigido por Klinger, cineasta brasileiro criado em grande parte fora do país, o filme acompanha uma protagonista urbana de meia-idade lidando com incertezas emocionais e profissionais. Teixeira o descreve como um “Frances Ha” para alguém perto dos 50 anos — uma história de autodescoberta tardia narrada com empatia e discrição. O que o entusiasma não é uma mensagem social explícita, mas a recusa do filme em se adequar às expectativas internacionais sobre o que o cinema brasileiro “deveria” ser. Rodado em película, com poucos recursos, “Isabel” privilegia textura, atuação e identificação, em vez de espetáculo ou didatismo. Sua seleção para o Panorama, observa Teixeira, o insere na linhagem de alguns dos filmes independentes mais influentes do século.
A avaliação de Teixeira sobre o cinema brasileiro em geral é cautelosamente otimista. Após anos de hostilidade institucional durante o governo Bolsonaro — agravados pelos efeitos da pandemia —, o apoio público à cultura começa a ser retomado sob a presidência de Lula. A recuperação, alerta ele, levará anos, não meses. Ainda assim, o reconhecimento internacional veio rápido: prêmios em Berlim e Cannes, renovada atenção a diretores como Kleber Mendonça Filho e o sucesso global de “Ainda Estou Aqui”. Na América Latina, Teixeira enxerga o Brasil se afirmando como um polo criativo, não apenas por seus diretores, mas por um conjunto sólido de atores capazes de sustentar projetos ambiciosos.
Essa confiança renovada também alimenta seu projeto mais audacioso: ressuscitar a carreira de Brian De Palma com “Sweet Vengeance”, o primeiro filme do diretor desde 2019. Para Teixeira, a ideia de que um cineasta com mais de 80 anos esteja “acabado” reflete um fracasso cultural mais amplo em valorizar a longevidade artística. Ele fala da produção como uma forma de construção coletiva — combinando a visão de veteranos com a energia de profissionais mais jovens, equipes internacionais com expertise local. Ao filmar em Portugal, empregar técnicos brasileiros, aproveitar incentivos fiscais e concentrar recursos em algumas sequências-chave, Teixeira acredita poder oferecer a De Palma o que lhe faltou nos últimos anos: tempo, confiança e apoio.

Sua reverência por De Palma é evidente. Teixeira enumera as contribuições do diretor — lançar carreiras, redefinir o cinema de gênero, colaborar com compositores que vão de Bernard Herrmann a Ennio Morricone — e enquadra “Sweet Vengeance” não como nostalgia, mas como reparação. A divisão crítica, diz ele, é inevitável e irrelevante. O que importa é que o filme exista, realizado em condições que respeitem seu autor.
Enquanto a RT Features administra filmes em pós-produção, estreias em festivais e projetos em desenvolvimento inicial em cinco países, a estratégia de Teixeira permanece coerente. Ele busca diretores em momentos de vulnerabilidade ou transição: após fracassos comerciais, durante longos silêncios criativos ou antes da validação institucional. Nesses intervalos, oferece algo que os estúdios raramente concedem — paciência, curadoria e confiança.
Em um momento em que o cinema global parece cada vez mais polarizado entre conteúdos guiados por algoritmos e prestígio de museu, Rodrigo Teixeira ocupa um raro meio-termo. Ele produz filmes que circulam, que resistem ao tempo e que escapam a classificações fáceis. Seu trabalho sugere que o futuro do cinema autoral talvez não pertença a um único país ou sistema, mas àqueles que, como ele, se dispõem a transitar silenciosamente entre eles, reunindo equipes improváveis e confiando que, nas condições certas, os artistas ainda encontrarão uma forma de falar.