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Com pecha de 3ª via, Ronaldo Caiado mira esvaziamento da candidatura de Flávio Bolsonaro

Por Reinaldo Glioche

A decisão de Ronaldo Caiado de se colocar como pré-candidato à Presidência da República pelo PSD, legenda comandada por Gilberto Kassab, abre uma chave de leitura interessante e menos óbvia do que a classificação apressada de “candidatura de centro” sugere. Em um sistema político marcado por pragmatismo e elasticidade ideológica, o gesto de Caiado não aponta necessariamente para a construção de uma terceira via, como a opinião pública formaliza, mas para algo mais sofisticado: uma tentativa de reorganizar o campo da direita brasileira por dentro.

Kassab, arquiteto de alianças por excelência, construiu o PSD como uma força adaptativa, capaz de orbitar governos de diferentes matizes ideológicas. Trata-se de um “centro à brasileira”, mais funcional do que programático. Nesse contexto, a escolha de Caiado em detrimento de Eduardo Leite — este sim mais identificado com um centro liberal e até com nuances de centro-esquerda — não é trivial. Ela indica uma leitura estratégica do momento político: o Brasil de 2026 não parece demandar moderação pura, mas uma direita com maior capacidade de articulação e menos dependente do personalismo bolsonarista.

A polarização entre o lulismo, liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, e o bolsonarismo, agora representado eleitoralmente por Flávio Bolsonaro, segue como eixo estruturante da disputa. No entanto, essa polarização não é estática. Pesquisas recentes de institutos como Datafolha e Atlas Intel indicam que cerca de 60% dos brasileiros se identificam como de direita. Esse dado, mais do que um retrato ideológico, revela uma disposição social que transcende lideranças específicas. É nesse espaço que Caiado tenta se inserir.

Diferentemente de uma candidatura centrista clássica, que buscaria equidistância entre os polos, Caiado assume uma identidade de direita relativamente nítida. Sua trajetória está vinculada ao agronegócio, à defesa de pautas de segurança pública e a um conservadorismo pragmático. Seu governo em Goiás, amplamente bem avaliado, reforça essa imagem de gestor eficiente, alinhado a demandas concretas do eleitorado.

Mas há um elemento adicional que complexifica sua candidatura: o aceno à base bolsonarista. Ao sinalizar, ainda no início de sua movimentação, a possibilidade de anistia para Jair Bolsonaro e para os condenados pelos atos de 8 de janeiro, Caiado não apenas dialoga com a direita radicalizada, mas tenta, deliberadamente, esvaziar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Trata-se de uma estratégia de captura de base: ao incorporar pautas simbólicas do bolsonarismo, busca-se reduzir o diferencial competitivo do adversário dentro do mesmo campo ideológico.

Foto: Ascom/Governo de Goiás

Esse movimento sugere que o sistema político não enxerga a candidatura de Flávio Bolsonaro como hegemônica. Há, portanto, uma janela de oportunidade para uma direita alternativa, menos personalista, mais institucionalizada, mas ainda assim ideologicamente reconhecível. Caiado se apresenta como esse vetor.

Do ponto de vista sociológico, essa estratégia dialoga com um segmento específico do eleitorado brasileiro: aquele que não possui fidelidade orgânica a lideranças políticas, mas reage a condições materiais imediatas. É o eleitor que votou em Lula em 2022 menos por adesão programática e mais por rejeição a Bolsonaro ou por expectativas de melhora econômica. Esse grupo, hoje, parece atravessado por um sentimento persistente de mal-estar.

Apesar de medidas recentes do governo Lula, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e esforços de controle inflacionário, indicadores como o alto nível de endividamento das famílias e o custo elevado do crédito mantêm uma percepção difusa de insegurança econômica. Esse eleitorado, volátil por natureza, tende a ser menos ideológico e mais sensível a promessas de estabilidade e previsibilidade.

É nesse ponto que Caiado pode encontrar tração. Ao combinar um discurso de ordem (típico da direita) com uma imagem de gestor eficaz, ele se posiciona como alternativa para esse eleitor “desalinhado”, que não se reconhece integralmente nem no lulismo nem no bolsonarismo. Trata-se de um eleitor que, em termos analíticos, poderíamos descrever como orientado pelo interesse econômico imediato (“fiel ao próprio bolso”).

No entanto, essa mesma estratégia carrega riscos. Ao flertar com pautas da direita radical, Caiado pode comprometer sua capacidade de expansão para além desse núcleo. A tentativa de ser simultaneamente palatável para o centro e competitivo à direita exige um equilíbrio delicado e historicamente instável no Brasil.

Além disso, sua viabilidade eleitoral ainda é incerta. Caso não consiga atingir dois dígitos nas pesquisas de intenção de voto, sua candidatura pode não resistir até as convenções partidárias. O sistema político brasileiro, altamente pragmático, tende a abandonar projetos sem densidade eleitoral comprovada.

Ainda assim, reduzir Caiado a um “balão de ensaio” seria um erro de diagnóstico. Sua candidatura revela uma movimentação mais ampla: a busca por uma direita que não rompa com a polarização, mas que a atravesse de maneira mais estratégica. Em vez de se colocar como terceira via — categoria já desgastada no debate público —, ele tenta reposicionar o eixo da disputa, oferecendo uma alternativa interna ao campo conservador.

Em termos mais amplos, o que está em jogo não é apenas o desempenho de Caiado, mas a capacidade do sistema político brasileiro de produzir novas mediações em um ambiente marcado por radicalização e desconfiança institucional. Se bem-sucedida, sua candidatura pode não necessariamente vencer, mas alterar o equilíbrio de forças — e, sobretudo, a gramática da disputa.

Por ora, trata-se de uma possibilidade remota, mas não irrelevante. Em um cenário de polarização saturada, até mesmo movimentos marginais podem gerar efeitos desproporcionais. Caiado, nesse sentido, é menos uma ruptura e mais um sintoma: o de que a direita brasileira ainda busca sua forma definitiva no pós-bolsonarismo.

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