Redação Culturize-se
A pesquisa “Clima em Cena: A Emergência Climática em Filmes de Ficção Brasileiros”, que será apresentada na COP30 em Belém, oferece o diagnóstico mais detalhado já feito no país sobre a presença, ou ausência, da crise climática no cinema nacional contemporâneo. Coordenado pela Associação Brasileira de Autores Roteiristas (ABRA) e baseado na metodologia norte-americana Climate Reality Check, o estudo revela uma lacuna significativa entre a realidade ambiental enfrentada pelo Brasil e a forma como essa emergência é representada na ficção.
O dado mais contundente é que apenas 9% dos filmes analisados fazem referência explícita à crise climática e apresentam personagens com consciência sobre o tema. Entre os 33 títulos avaliados, todos lançados nos últimos cinco anos e destacados em grandes festivais, somente três passaram integralmente pelo teste: ‘A Flor do Buriti”, “A Nuvem Rosa” e “Homem Onça”. O resultado brasileiro praticamente replica o encontrado nos Estados Unidos em 2024, quando o mesmo método identificou que 9,6% das obras mencionavam a crise.
Apesar disso, o levantamento aponta que 57% dos filmes trazem questões ambientais locais, como desmatamento, poluição e perda de biodiversidade. O problema, segundo a coordenadora Gisele Mirabai, é a desconexão entre essas problemáticas e a emergência climática global. “Os dados indicam um distanciamento entre a realidade climática vivida pelos brasileiros e a forma como ela é retratada na ficção”, afirma. A pesquisa, reforça, não tem caráter prescritivo, mas convida roteiristas, produtores e instituições a refletirem sobre a ausência de um tema que atravessa todas as dimensões da vida nacional.
Para Samuel Rubim, cofundador do Entertainment + Culture Pavilion, o estudo escancara uma tendência global. “A lacuna de narrativas sobre o clima é um desafio em todos os mercados. A cultura precisa integrar os planos de adaptação climática — e isso não ocorrerá se a emergência climática não estiver refletida no entretenimento mainstream”, diz. A roteirista Carmiel Banasky, representante da Good Energy, reforça que a expansão internacional do Climate Reality Check mostra como adaptações regionais podem fortalecer o debate cultural. “Quando os filmes refletem nossa realidade climática, eles têm o poder de mudar o debate público”, afirma.