Reinaldo Glioche
O cinema brasileiro vive um momento raro de convergência entre reconhecimento artístico, circulação internacional e diversidade de propostas estéticas. Na esteira do sucesso de “O Agente Secreto”, que segue reverberando mundo afora e consolidando a percepção de uma cinematografia criativa, politicamente atenta e formalmente ousada, novos filmes brasileiros ocupam vitrines importantes do circuito global. Obras como “Isabel”, de Gabe Klinger, “Privadas de Suas Vidas”, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, e o documentário “Apolo”, de Tainá Müller e Isis Broken, ajudam a compor um retrato multifacetado desse momento fértil.
Selecionado para a seção Panorama do Festival de Berlim, “Isabel” marca a estreia de Gabe Klinger na direção de um longa-metragem rodado no Brasil. Produzido pela RT Features, o filme acompanha Isabel, uma sommelière vivida por Marina Person que atua no exigente universo da alta gastronomia paulistana enquanto tenta se libertar de um chefe controlador e sonha em abrir o próprio bar de vinhos. O roteiro, assinado por Klinger em parceria com a atriz, mistura vivências pessoais de Person com relatos reais de mulheres que atuam na cultura dos vinhos naturais no Brasil.
Rodado em película 16 mm e inteiramente em locações reais, “Isabel” aposta em uma estética analógica que dialoga diretamente com a filosofia da personagem. “Optei por um formato não filtrado para criar uma analogia visual com os produtos naturais que ela defende”, explica Klinger. A cidade de São Paulo surge como personagem central, em uma abordagem que remete a clássicos como “São Paulo Sociedade Anônima”, de Luiz Sérgio Person. “Nosso filme é sobre a aventura cotidiana de tentar se destacar em uma selva urbana imensa como São Paulo. É possível encontrar coerência pessoal em um lugar assim?”, questiona o diretor.

O longa conta ainda com Caio Horowicz, John Ortiz, Marat Descartes e Clarisse Abujamra no elenco, e tem produção de Rodrigo Teixeira, nome-chave por trás de “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de Filme Internacional. “’Isabel’ é um filme muito sensível e o Gabe é muito talentoso. Estamos ansiosos para mostrar este filme em Berlim”, afirma o produtor.
Se “Isabel” aposta no realismo urbano e na intimidade psicológica, “Privadas de Suas Vidas” segue por um caminho radicalmente distinto — e igualmente representativo da vitalidade do cinema nacional. Dirigido por Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, o longa estreou no Festival de Rotterdam, na prestigiada Mostra Harbour, com uma mistura provocadora de horror gore, humor ácido e comentário social. Protagonizado por Martha Nowill, o filme acompanha Malu, uma mãe em luto que tenta se reconectar com o filho adolescente, Gênesis, uma pessoa não binária, enquanto eventos absurdos e violentos passam a emergir dos banheiros de um prédio amaldiçoado.
A recepção crítica internacional foi entusiasmada. Para Sarah Musnicky, do portal In Between Drafts, o filme usa o grotesco como metáfora emocional: “Podemos tentar dar descarga nas coisas que nos causam dor, mas elas sempre encontram um jeito de voltar à tona”. Já Max Borg, do The Film Verdict, elogiou a combinação de gêneros e o tom assumidamente excessivo da obra, destacando que Vinagre e Gewdner “constroem o melhor argumento para resgatar e ressignificar o adjetivo ‘merdástico’”. Os diretores explicam que o uso da privada e dos excrementos não é gratuito. “Inspirado nas tradições do gore e no clima sociopolítico dos últimos anos, o filme usa esses elementos como instrumentos de entretenimento ácido e provocativo”, afirmam.
No campo do documentário, “Apolo” reforça a presença brasileira em festivais de grande visibilidade ao ser selecionado para a edição 2026 do SXSW, no Texas. Dirigido por Tainá Müller e Isis Broken, o filme já havia sido premiado no Festival do Rio e no MixBrasil antes de alcançar sua première internacional. A obra acompanha a gestação de Apolo em uma família transcentrada, na qual o pai está dando à luz, propondo um olhar sensível sobre afeto, resistência e parentalidade fora dos padrões normativos.

Para Tainá Müller, a estreia no SXSW carrega um peso simbólico especial. “Levar ‘Apolo’ para esse contexto, em um ano histórico para o cinema brasileiro e delicado para os EUA, pode ser um pequeno sopro de esperança para os que buscam igualdade e respeito”, afirma. Isis Broken destaca o caráter político da intimidade exposta no filme: “As pautas sobre maternidade e paternidade trans precisam ser visibilizadas. É difícil, mas também é uma forma de resistência”.