Redação Culturize-se
O brasileiro já convive com a inteligência artificial no dia a dia do consumo e, em muitos casos, sem perceber. Mas uma pergunta cada vez mais concreta divide opiniões: até que ponto as pessoas estão dispostas a deixar que uma máquina decida o que comprar? Um levantamento da agência Conversion em parceria com a ESPM, realizado com 400 consumidores conectados à internet, revela que 40% dos brasileiros afirmam aceitar que a IA faça compras em seu lugar. Ao mesmo tempo, 95% demonstram algum nível de preocupação com segurança e privacidade. A tensão entre adoção e desconfiança define o momento atual do e-commerce brasileiro.
Os números mostram que a IA já está bem instalada na jornada de compra. Segundo o mesmo levantamento, 57,5% dos entrevistados já usaram ferramentas de inteligência artificial para pesquisar produtos antes de comprar, e 44,2% admitiram ter mudado sua decisão com base em recomendações dessas plataformas. Quase metade dos participantes (49,7%) usa ferramentas de IA generativa diariamente, e 93,8% já as utilizaram ao menos uma vez.
O comportamento também se confirma em outros estudos. Pesquisa da MindMiners sobre a Black Friday apontou que 1 em cada 3 compradores já usou IA para comparar preços e escolher produtos durante o evento. Outros 8% sequer sabiam que isso era possível, o que indica que o potencial de adoção ainda tem muito espaço para crescer.
Da pesquisa à decisão autônoma
Para especialistas, o movimento em curso é mais profundo do que uma simples mudança de hábito. “Estamos vivendo a transição do consumidor reativo para o consumidor assistido. A IA não apenas apoia a decisão, ela começa a tomá-la de forma autônoma em nome do usuário”, afirma Kenneth Corrêa, professor de MBA da Fundação Getulio Vargas (FGV) e autor de “Organizações Cognitivas”. Para as marcas, o desafio passa a ser garantir que os agentes de IA as escolham e não aos concorrentes.
Esse deslocamento já está sendo incorporado pelas grandes plataformas. O Google anunciou recentemente um pacote de recursos voltados ao varejo: o Gemini Enterprise for Customer Experience, que permite às marcas criar agentes baseados em seus próprios catálogos; o Business Agent, que possibilita ao consumidor conversar diretamente com marcas dentro da página de busca; e as compras diretas pelo Gemini, integrando busca, comparação e pagamento via Google Pay em uma única interface conversacional. Não por acaso, 32,3% dos usuários já relatam diminuição nas buscas tradicionais no Google desde que passaram a usar IA.
“As empresas que construírem presença relevante nas respostas de IA hoje estão construindo o canal de vendas do amanhã. É uma janela estratégica que se fecha à medida que o mercado amadurece”, alerta Corrêa.
A aceleração, porém, encontra resistência. Os 95% de brasileiros com algum nível de preocupação apontam medos que vão de compras não autorizadas e decisões equivocadas até fraudes e perda de controle financeiro. O índice supera a média global e revela que a confiança ainda precisa ser construída.
“Confiança digital não se constrói com disclaimers, mas com arquitetura segura e transparência real. Se a IA executa uma compra, precisa ser absolutamente segura. Uma falha compromete não só o usuário, mas toda a cadeia do e-commerce”, afirma Fernando Corrêa, CEO da Security First. Para Rodrigo Cruz, vice-presidente da Keyrus no Brasil, o caminho passa por governança. “Quando falamos de compras feitas por agentes inteligentes, o nível de responsabilidade aumenta. O ponto central é estruturar dados e governança para garantir que essas decisões automatizadas aconteçam com segurança e responsabilidade.”

IA como copiloto financeiro
Parte da abertura do consumidor brasileiro para a IA nas compras tem raízes na digitalização das finanças. Segundo pesquisa da Lina Open X com a MindMiners, 72% dos brasileiros afirmam que a tecnologia contribuiu para melhorar sua relação com o dinheiro. Nesse contexto, a IA assume o papel de copiloto financeiro — comparando preços, organizando informações e executando transações.
“O PIX e o Open Finance se consolidam como infraestruturas que viabilizam a compra autônoma via IA: rápida, sem fricção e com mais controle para o usuário”, analisa Alan Mareines, CEO da Lina Open X.
O quadro geral aponta para uma transformação estrutural no varejo. Segundo a pesquisa da Conversion e ESPM, 96,5% dos usuários reconhecem ganhos ao usar IA; como mais agilidade na pesquisa, melhores comparações de preço e decisões mais informadas. A lacuna entre utilidade e segurança, no entanto, segue como o principal campo de disputa. As marcas que souberem atravessá-la primeiro terão nas mãos não apenas um diferencial competitivo, mas o modelo de relacionamento com o consumidor do futuro.