Redação Culturize-se
A Globo Livros acaba de lançar “O Brasil no Espelho: Um Guia Para Entender o Brasil e os Brasileiros”, obra assinada pelo cientista político Felipe Nunes, CEO da Quaest, uma das mais prestigiadas empresas de pesquisas de opinião pública do país. O livro apresenta os resultados da maior pesquisa já realizada pelo instituto sobre ideias e crenças, encomendada pela TV Globo, com quase 10 mil entrevistas realizadas em novembro e dezembro de 2023. Trata-se de um ambicioso trabalho de investigação sobre os valores da sociedade brasileira, cujos dados são complexos e incontornáveis para intelectuais e lideranças políticas interessados em compreender o país fora da histeria ideológica que na última década pautou o debate político.
A obra divide o Brasil em nove identidades políticas: conservadores cristãos (27%), dependentes do Estado (23%), agro (13%), progressistas (11%), militantes de esquerda (7%), empresários (6%), liberais sociais (5%), empreendedores individuais (5%) e extrema-direita (3%). Cada uma dessas bolhas apresenta opiniões divergentes sobre os principais temas de interesse nacional, como economia, assistência social, segurança pública, democracia, ditadura e costumes. Essas identidades possuem considerável grau de “calcificação”, ou seja, as possibilidades de trânsito entre elas são restritas, o que sugere o estreitamento da retórica como técnica de convencimento através da palavra.
O Brasil que emerge das entrevistas
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Nunes contextualiza que o brasileiro de hoje tem valores muito próximos aos de três décadas atrás. Ao comparar os dados com séries internacionais de longo prazo, o cientista político recorre a um mapa de concepções: de um lado, a importância de religião, família e tradição; de outro, a valorização de bem-estar, confiança e tolerância. O Brasil avançou nesse segundo sentido nos anos 2000, mas, com as crises da última década, retornou a priorizar o primeiro. “Mudanças muito rápidas fizeram as pessoas voltarem a se fechar”, declarou.
Nos últimos dez anos, acumulam-se eventos como o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão do então ex-presidente Lula, a Copa do Mundo, o crescimento da direita e dos evangélicos, a universalização das redes sociais, crises econômicas e a pandemia de Covid-19. A rotina se tornou quase sinônimo de insegurança e reconduziu brasileiros a respostas mais conservadoras. “Em épocas de abundância, com segurança física e emocional, as sociedades tendem a se liberar das tradições. No nosso caso, tudo que a gente tinha conquistado até 2013, 2014, acabou voltando atrás”, afirmou.

Um dado crucial emerge da pesquisa: apenas 3% dos brasileiros se enquadram na extrema direita. Quem está nesse núcleo defendeu nas entrevistas a ideia de que um regime autoritário pode ser melhor do que a democracia. “Se tem uma coisa que esse livro tem que fazer é ajudar a gente a dar o nome certo para esse negócio que chama extrema direita”, diz Nunes. São 6 milhões de brasileiros. “É muita gente, mas, perto do total de brasileiros, é pouco.”
A maioria dos eleitores bolsonaristas, muitas vezes tratados como sinônimo da extrema direita, pertenceriam a grupos distintos. Inflar artificialmente o tamanho desse núcleo mais radical, afirma, torna o debate público mais polarizado do que a realidade. Para o pesquisador, há um contingente expressivo de eleitores conservadores não extremistas sendo negligenciado, o que produz erros estratégicos por parte da classe política.
Gerações e perspectivas de futuro
Em entrevista ao O Globo, Nunes divide as gerações em quatro grupos. A “Bossa Nova” (1945-1964), marcada pelo otimismo desenvolvimentista; “Ordem e Progresso” (1964-1980), forjada pelo regime autoritário; “Redemocratização” (1980-2000), quando o país estabilizou a moeda; e “Geração.com” (anos 2000 em diante), com convivência permeada pelo digital.
A insegurança permeia todas as gerações, mudando apenas o tipo. Essas inseguranças ajudam a explicar por que o Brasil, independentemente das gerações, é um povo conservador na média. “Porque a gente convive com insegurança econômica, política e urbana quase como regra. Isso produz conservadorismo, produz uma necessidade de se apegar àquilo que é mais tradicional”, analisa.
A “Geração.com” apresenta sinais de cansaço da polarização. 42% se declaram de centro, ante 28% de direita e 26% de esquerda, percentual superior ao de outros grupos. “É a primeira vez que uma pesquisa constata, no país, que o jovem se vê muito mais no centro do que em qualquer um dos polos. Isso indica um cansaço dessa polarização eleitoral que nós vivemos”, afirma Nunes.
Quanto às eleições de 2026, o autor identifica dois grupos em disputa. Empreendedores individuais (delivery, motoristas de aplicativo, manicures, diaristas) e liberais sociais, que votaram no PT pela primeira vez em 2022. Esses grupos, de maneiras distintas, têm visões claras sobre liberdade, e um governo mais intervencionista é visto como algo que os prejudica.
Embora “Brasil no Espelho” represente um esforço louvável de compreensão empírica da sociedade brasileira, algumas questões merecem reflexão crítica. A divisão em nove identidades políticas, embora metodologicamente rigorosa, carrega inevitavelmente premissas ideológicas que podem ser questionadas. O próprio autor reconhece que “toda classificação demanda critérios que não são imunes às premissas ideológicas”.
A categorização do “brasileiro médio” como conservador nos costumes é útil como tipo ideal weberiano, mas corre o risco de essencializar comportamentos que são historicamente contingentes. A afirmação de que os valores atuais são próximos aos de três décadas atrás contradiz, em certa medida, a própria análise geracional apresentada, que demonstra diferenças significativas entre “Bossa Nova” e “Geração.com” em questões como religião, discriminação e composição familiar.
A interpretação de que ser “conservador nos costumes” não significa negar direitos fundamentais a minorias, mas apenas rejeitar “ideologia de gênero” e intervenções hormonais em crianças, por exemplo, merece escrutínio mais aprofundado. Essa distinção pode funcionar retoricamente, mas na prática política, o conservadorismo nos costumes frequentemente se traduz em resistência concreta à ampliação de direitos, como demonstram debates legislativos recentes.
A prescrição final de que “a estratégia que deve conduzir a atuação da esquerda precisa estar focada na universalização de direitos, sem ceder à tentação de tensionar nos costumes” revela mais uma visão normativa do autor do que um achado empírico. Trata-se de uma leitura política dos dados que, embora legítima, confunde descrição com prescrição.
Por fim, a ênfase na polarização produzida por atores políticos, em vez de refletir divisões sociais reais, minimiza o papel de conflitos estruturais na sociedade brasileira. A polarização não é apenas um fenômeno discursivo, mas expressão de interesses materiais divergentes que a pesquisa captura, mas talvez não teorize adequadamente.
Apesar dessas ressalvas, “Brasil no Espelho” é leitura indispensável para compreender o Brasil contemporâneo, oferecendo dados robustos que desafiam narrativas simplificadoras tanto à esquerda quanto à direita.