Redação Culturize-se
A partir de 10 de outubro, quem atravessar o Parque Tenente Siqueira Campos, o Trianon, na capital paulista, vai encontrar espelhos suspensos entre árvores centenárias. Eles integram “Outro Lado”, exposição inédita da artista visual Betina Samaia, com curadoria de Marcello Dantas, instalada em uma das últimas áreas preservadas de Mata Atlântica no coração da cidade. Gratuita e ao ar livre, a mostra fica em cartaz até 20 de dezembro.

Concebida especialmente para o local, a instalação propõe um percurso sensorial. Grandes espelhos recebem fotografias da artista e incorporam o reflexo da floresta, da luz e das pessoas que passam pelo parque. A cada deslocamento, as imagens se transformam: não há ponto de vista único nem obra definitiva. A exposição acontece no encontro entre a paisagem real, as fotografias e quem as observa, e a própria mata se torna espaço expositivo.
A série nasceu de forma intuitiva, durante a pandemia, numa temporada de Betina em Paraty (RJ). Em uma caminhada por trilha cercada de Mata Atlântica, ela levou um espelho até a margem de um rio tomado por lírios-do-brejo e experimentou reflexos entre água, vegetação e luz. Descobriu ali uma linguagem visual que se tornou uma das pesquisas centrais de sua produção. “Não sigo mapas. Meu processo criativo é bastante intuitivo e, muitas vezes, a compreensão vem depois”, diz.
O projeto ganhou nova dimensão no diálogo com Marcello Dantas. Diante do desejo da artista de romper com o espaço expositivo tradicional, surgiu a proposta de levar as obras para uma floresta viva, continuamente transformadas pela luz, pelo vento e pela presença do público.
No texto curatorial, Dantas descreve a exposição como uma operação em camadas de percepção. A primeira é a mata real, com sua luz, umidade e sons. A segunda é a paisagem fotografada ou imaginada, de outros tempos e lugares, suspensa dentro da primeira. A terceira nasce do encontro: composta por reflexo, transparência e pelo corpo do visitante, ela é fotografada por quem passa e se multiplica em outras telas e memórias. “Toda paisagem contém outra, adormecida”, escreve o curador. Nessa chave, cada visitante é também autor de uma imagem sem fim.
Dantas aproxima os espelhos de passagens para uma dimensão paralela da consciência, como os portais que xamãs enxergam na mata, acessíveis pelo sonho. Neles, o público vê a floresta e a si mesmo dentro dela, e a fronteira entre corpo e mata, real e imaginário, se dilui. O curador fala ainda em uma “alucinação luminosa”, o encontro de três tempos: o profundo da mata, o incerto da imagem e o instantâneo de quem acaba de chegar.
Inaugurado em 1892, o Trianon abriga um dos últimos remanescentes de Mata Atlântica preservados na região central. Em “Outro Lado”, a floresta deixa de ser cenário e vira protagonista: vegetação, umidade, sons e luz compõem as próprias imagens.

Formada em Psicologia pela PUC-SP, Betina Samaia usa a fotografia para investigar as fronteiras entre natureza, imaginação e inconsciente, em uma trajetória de duas décadas. Seu trabalho passou por instituições e eventos como o MIS, o Museu Histórico Nacional, o Paraty em Foco, a SP-Arte, a ArtRio e o Carrousel du Louvre, em Paris. Em 2026, a série “Amazônia – O Fim do Verde” foi selecionada para a exposição itinerante do World Water Day Photo Contest, inaugurada em Milão. A artista também assina livros como “Azul” e “Noite Afora, Noite Adentro” e acumula prêmios internacionais, entre eles IPA e PX3.