Redação Culturize-se
Benny Safdie, conhecido por criar, ao lado do irmão Josh, sinfonias urbanas caóticas, debuta como cineasta solo em um projeto aparentemente atípico. “Coração de Lutador” mais parece um veículo para Dwayne “The Rock” Johnsson se provar um ator sério, do que um exercício autoral de um hypado autor americano contemporâneo.
O longa estreou com aclamação no Festival de Veneza e marca a estreia solo de Safdie como roteirista, diretor e editor. Para ele e para The Rock, trata-se de um filme sobre transformação — física, emocional e criativa.
Do caos ao controle
Safdie construiu sua reputação transformando o estresse em arte. Junto de Josh, deu vida ao estilo que os consagrou — frenético, ininterrupto, pulsando de ansiedade. De “Bom Comportamento” a “Uncut Gems”, os irmãos retrataram personagens à beira do colapso, com uma câmera que nunca piscava. Em”Coração de Lutador”, no entanto, Benny troca corredores claustrofóbicos pela brutalidade crua do ringue.
Baseado no documentário homônimo de John Hyams (2002), o filme acompanha Mark Kerr, lutador do UFC cuja ascensão meteórica espelhava sua queda na dependência química. É uma história de triunfo físico e ruína espiritual e, para Johnson, uma chance de despir sua armadura cinematográfica.
“É uma carta de amor aos que enfrentam a dor”, diz o ator. “E também aos amigos meus e de Mark que morreram jovens.”
O projeto começou quando Johnson procurou os irmãos Safdie após “Uncut Gems”, esperando que eles fizessem por ele o que fizeram por Adam Sandler — revelar o homem por trás da persona. A pandemia atrasou o filme, e, nesse hiato, Benny começou a se reinventar. Em 2024, os irmãos se separaram profissionalmente, de forma amigável. “Coração de Lutador” tornou-se seu manifesto de independência.
Desconstruindo The Rock
Durante décadas, Johnson construiu seu império com carisma e músculos. O herói imbatível que nunca sua. Mas neste filme, ele arrisca tudo para mostrar as rachaduras.

Johnson interpreta Kerr não como ídolo, mas como um homem consumido pela pressão e pelo vazio. Sua atuação é crua, quase autodestrutiva. Em uma cena de luta crucial, Safdie exigiu autenticidade: “Disse ao Dwayne que não queria cortes rápidos. O público precisava sentir a dor, explicou em entrevista à revista MovieMaker.”
Johnson levou isso ao pé da letra. “Falei para o Yoko Hamamura, que faz o Fujita: ‘Me acerta de verdade’. Ele achou que eu estava brincando. Mas era uma tomada só, e Benny não ia cortar. Fiquei tonto por dias, mas valia a pena. Aquela luta mudou a vida do Mark.”
O realismo vai além dos golpes. Filmado em 16 mm por Maceo Bishop, o longa captura o suor e o silêncio com igual precisão. O maquiador Kazu Hiro alterou levemente o rosto de Johnson; o suficiente para apagar o sorriso de The Rock, mas não sua humanidade.
“O objetivo era desaparecer”, diz o ator. “E eu queria isso há muito tempo.”
Emily Blunt e o coração da história
Emily Blunt interpreta Dawn Staples, ex-esposa de Kerr, e traz o contraponto emocional. “Eles tinham uma relação codependente, apaixonada, explosiva”, explica. “Dois cometas em rota de colisão.”
A atriz, que já havia contracenado com Johnson em “Jungle Cruise”, diz ter se atraído pela intensidade de Safdie. “Ele apaga a linha entre ficção e realidade. Você esquece que há uma câmera. É assustador e libertador ao mesmo tempo.”
A relação entre os personagens é marcada por amor, vício e tentativas de salvação. Uma dança dolorosa que humaniza ambos. “Mesmo sem o vício, estar com um lutador é viver à margem”, diz Blunt. “Você só é necessário quando ele está em pedaços.”
Para Safdie, essa tensão é o núcleo do filme. “Eu quis tornar a empatia algo poderoso”, afirma. “Fazer o público sentir o que Mark sentia. Esse é o filme.”

Separação e amadurecimento
A dissolução da parceria entre os irmãos Safdie foi vista por muitos como ruptura, mas Benny a enxerga como evolução. “Antes fazíamos filmes juntos, agora fazemos separados. E tudo bem”, diz.
Enquanto Benny lança “Coração de Lutador”, Josh se prepara para pôr no mundo “Marty Supreme“, drama esportivo com Timothée Chalamet, também produzido pela A24. Eles continuam dividindo a Elara Pictures, produtora responsável pela série “The Curse”, criada por Benny com Nathan Fielder e Emma Stone e disponível no Paramount+.
No fundo, “Coração de Lutador” não é sobre violência, mas sobre o que vem depois. Johnson e Blunt falaram sobre o impacto emocional de revisitar o vício, a perda e a recuperação. “Você segura a mão do outro e diz: ‘Vamos até o fim’”, reflete Johnson. “Confiando que Benny vai nos guiar.”
Para o ator, o tema é pessoal: ele perdeu vários amigos da luta para o vício e o suicídio. “Às vezes, a dor é demais”, confessa. “Mark Kerr teve duas overdoses. Mas sobreviveu. E é disso que o filme trata. De sobreviver.”

Ao introduzir Kerr no Hall da Fama do UFC, Johnson resumiu o espírito da obra: “Às vezes, vencer é o inimigo. O que realmente importa está na derrota.”
Essa ideia guiou toda a produção. “No nosso mundo, sucesso é estar no topo”, diz o ator. “Mas a pressão quebra as pessoas. E o importante é conseguir se reconstruir depois.”
“Você deve sempre tentar ser um pouco melhor. Ou ao menos diferente”, diz o diretor sobre o projeto. “E este filme é isso: diferente.”
Como sua câmera, ele já não se esconde atrás do caos. Agora observa, pacientemente, até que a verdade se revele.