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Arte e ciência se unem para resgatar narrativas femininas silenciadas

Redação Culturize-se

Em um momento em que o Brasil discute representatividade e inclusão, duas iniciativas distintas convergem para um mesmo propósito: dar voz às experiências femininas historicamente silenciadas. De um lado, a arte contemporânea revisita memórias ancestrais de clausura religiosa. Do outro, a ciência desafia padrões excludentes no cuidado estético. Ambas as abordagens revelam como mulheres estão ressignificando espaços tradicionalmente restritivos.

No coração do antigo Convento das Mercês, em Salvador, o arquiteto Hugo Ribeiro criou o “Lounge da Renúncia” para a CASACOR Bahia 2025. A instalação imersiva de 125 m² ocupa a histórica Casa Nossa Senhora das Mercês, construída em 1735, transformando o espaço sagrado em território de questionamentos sobre a espiritualidade feminina silenciada ao longo dos séculos.

“A maioria das reações envoltas em emoção e arrepios vieram do público feminino”, revela Hugo. “Mesmo persistentes na fé, as mulheres compreendem o processo do espaço com mais facilidade que os homens. Algumas visitantes, principalmente as de idade avançada, sentem tanta angústia que não conseguem permanecer no ambiente.”

A reação visceral das visitantes não é coincidência. Dados globais da Pew Research Center mostram que 83,4% das mulheres com mais de 20 anos mantêm filiação religiosa, contra 79,9% dos homens. No Brasil, cerca de 192 milhões de pessoas são adeptas a algum tipo de religião, segundo a World Population Review, com majoritariedade feminina. Essa predominância, entretanto, convive com um histórico de subordinação que inclui encarceramento em conventos, invisibilização intelectual e exclusão de posições de liderança.

O ambiente projetado por Hugo dialoga diretamente com essas memórias. Entre as obras expostas estão uma imagem barroca de Nossa Senhora da Conceição com 1,20m, a pintura “Vertigem” de Luis H. Lunardelli e a instalação “Penitência” – espaço onde as visitantes mais se identificam e, paradoxalmente, mais sentem desconforto.

Foto: Divulgação

“O lounge é um lugar onde o sagrado e o desconforto dividem o mesmo banco”, explica o arquiteto. “Nada aqui é feito para agradar. É como se a arquitetura do convento, os objetos sacros e as obras falassem por si. Eu apenas escutei e organizei.”

Paralelamente a essa revisão histórica através da arte, outro movimento questiona exclusões contemporâneas. No setor da estética, a biomédica Jessica Magalhães representa uma nova geração de profissionais que desafia padrões eurocêntricos de beleza. Especialista em pele negra há mais de 10 anos, ela atende personalidades como Tarsila Alvarindo, Val Benvindo e Najara, sinalizando uma mudança no mercado estético brasileiro.

Os números justificam essa especialização. Mais de 60 milhões de mulheres brasileiras se reconhecem como negras, representando 28% da população. Contudo, apenas 5,9% das vendas de cosméticos no país focam em produtos para pele negra, segundo pesquisa da Nielsen. Além disso, esses produtos custam até 50% mais que os voltados para “todos os tons de pele”.

“Meu interesse surgiu da minha própria vivência”, conta Jessica. “Passei por vários atendimentos tentando tratar minha pele sem sucesso. Era como se a nossa pele fosse sempre um desafio, e não uma prioridade.”

A abordagem da biomédica vai além da técnica, incorporando sensibilidade cultural. “Propor uma estética mais inclusiva é oferecer segurança técnica com sensibilidade humana, é cuidar da pele sem apagar a identidade de quem a carrega”, afirma. Sua prática funciona como espaço de reconstrução da autoestima, oferecendo escuta ativa e acolhimento individualizado.

Ambas as iniciativas – a instalação artística de Hugo e o trabalho de Jessica – compartilham uma característica fundamental: reconhecem que corpos e memórias femininas carregam histórias de exclusão que precisam ser ressignificadas. Seja questionando tradições religiosas restritivas ou desafiando padrões estéticos excludentes, ambos profissionais criam espaços onde mulheres podem se reconhecer integralmente.

O “Lounge da Renúncia” permanece em cartaz até 7 de setembro, provocando reflexões sobre fé e liberdade. Enquanto isso, o trabalho de Jessica representa uma aposta diária na construção de dignidade através do cuidado estético inclusivo. Dois caminhos distintos que convergem para um mesmo destino: devolver às mulheres o direito de existir em sua plenitude, seja espiritual ou estética.

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