Redação Culturize-se
Oito meses após lançar o álbum de estreia, “Cinema love”, Flor Gil encerra 2025 com um movimento de inflexão estética e afetiva. O EP “Melíflua”, já disponível nas plataformas digitais, marca um desvio consciente do repertório autoral apresentado no disco lançado em abril e se constrói como um exercício de escuta, memória e intimismo. Com cinco faixas, o trabalho revisita clássicos da música brasileira e propõe um encontro entre gerações, tendo como fio condutor a delicadeza sugerida pelo próprio título.
Em “Melíflua”, Flor se afasta momentaneamente das composições originais e mergulha em canções que fazem parte de sua formação musical e afetiva. O EP reúne releituras de “Duplo Sentido”, música de Gilberto Gil lançada em 1974 na voz de Tetê da Bahia; “Corcovado” e “Dindi”, dois standards de Antonio Carlos Jobim; e “Avarandado”, canção da fase pré-tropicalista de Caetano Veloso, que surge como interlúdio. A quinta e última faixa é uma versão instrumental de “Saudade”, composição de Flor com Vitão e letra de Gilberto Gil, originalmente apresentada em “Cinema love”.
A presença de Gilberto Gil não se limita à autoria revisitada. O músico participa tocando violão em “Duplo Sentido” e “Corcovado”, reforçando o caráter familiar e afetivo do projeto. Segundo a própria artista, as faixas chegaram a ser pensadas para integrar o álbum de estreia, mas acabaram ganhando vida própria quando Flor decidiu convidar o avô para participar dos arranjos e da gravação. O resultado são registros marcados pela proximidade, como momentos de canto e violão compartilhados de forma despretensiosa, quase doméstica.

A produção musical de “Melíflua” é assinada de forma coletiva por Flor Gil, Barbara Ohana, Pedro Malcher e Gabriel Mielnik, equipe que contribui para um som contido, orgânico e atento às nuances vocais. Diferente do caráter mais cosmopolita e majoritariamente em inglês de “Cinema love”, o EP se ancora nas raízes da música brasileira e reafirma a capacidade de Flor de transitar entre universos estéticos distintos sem perder identidade.
Neta de Gilberto Gil e filha de Bela Gil, Flor constrói sua trajetória artística consciente tanto do legado quanto das expectativas que o sobrenome carrega. Ao longo do início da carreira, a cantora relata ter enfrentado preconceitos relacionados à idade, à projeção da família e à sua orientação sexual. Lésbica, ela afirma lidar com críticas de maneira equilibrada, aprendendo a diferenciar comentários construtivos de julgamentos que pouco acrescentam. O apoio familiar, segundo Flor, sempre foi decisivo nesse processo.
A perda recente da tia Preta Gil, em agosto deste ano, também atravessa o momento vivido pela artista. Referência pessoal e profissional, Preta deixou ensinamentos que Flor diz carregar consigo, especialmente a valorização da vida intensa e do afeto. Uma tatuagem em homenagem à tia simboliza esse vínculo e o luto que acompanha a nova fase.
Nascida em Nova York e atualmente estudante de música, Flor já se apresentou na cidade norte-americana, mas planeja concentrar sua carreira no Brasil. É aqui, segundo ela, que encontra maior proximidade com o público e espaço para colaborações. “Melíflua”, nesse sentido, funciona como um gesto de reconexão: com a língua, com a tradição musical brasileira e com uma identidade artística em plena construção, aberta a explorar diferentes gêneros desde que carreguem emoção, verdade e pertencimento.