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O efeito Kimmel: a rendição em cadeia de Hollywood ao poder de Trump

Redação Culturize-se

A suspensão do apresentador Jimmy Kimmel pela Disney, após ameaças regulatórias do governo Trump, não é um incidente isolado. É o sintoma mais visível de uma doença profunda que corrói as instituições americanas: a rendição sistemática ao poder político em troca de uma paz ilusória. O episódio, que se desenrolou na última semana, serve como um microcosmo de uma transformação cultural ampla e alarmante, onde a lógica do apaziguamento substitui a defesa de princípios, e a indústria do entretenimento, outrora um bastião de dissidência liberal, se reorganiza para servir a uma agenda conservadora.

A crise começou com uma piada. No programa de segunda-feira (15), Jimmy Kimmel criticou a tentativa do movimento MAGA de instrumentalizar politicamente o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk. A reação foi um teste de estresse para o frágil ecossistema da liberdade de expressão nos EUA. Brendan Carr, presidente da FCC (Comissão Federal de Comunicações) indicado por Trump, não perdeu tempo. Em um podcast de direita, deu um ultimato à Disney, controladora da ABC: silenciar Kimmel ou arriscar a revogação das licenças de transmissão da emissora. Conglomerados de mídia como Nexstar e Sinclair, ansiosos por obter aprovações regulatórias para megafusões, rapidamente retiraram o programa de suas afiliadas. Diante da pressão, a cúpula da Disney, liderada pelo outrora poderoso CEO Bob Iger, hesitou por meras horas antes de ceder, colocando o “Jimmy Kimmel Live!” em hiato indeterminado.

A capitulação da Disney, no entanto, é apenas um elo em uma longa cadeia de submissões. Semanas antes, a Paramount Global cancelou o “Late Night with Stephen Colbert” após o apresentador criticar um pagamento de US$ 16 milhões à Trump para encerrar uma ação judicial. O Wall Street Journal e o New York Times enfrentam processos bilionários por difamação movidos pelo presidente. A Amazon, por sua vez, investe pesado em documentários sobre Melania Trump e reprisa “The Apprentice”, o reality show que lançou Trump à fama. A mensagem é clara: a crítica tornou-se um risco comercial proibitivo.

Essa guinada conservadora não é apenas ideológica; é, sobretudo, econômica. Hollywood está em crise. As bilheterias não recuperaram os patamares pré-pandemia, o streaming esmagou fontes de renda tradicionais e o número de assinantes de TV a cabo despenca. Desesperados por lucros e estabilidade, os estúdios descobriram um novo mercado: o público conservador, um demográfico fiel e até então negligenciado. Franquias como “Yellowstone”, de Taylor Sheridan, que celebram um estilo de vida do interior contrário aos valores urbanos das costas, tornaram-se minas de ouro. Produtoras “afeiçoadas à fé”, como a Angel Studios – responsável por sucessos como “O Som da Liberdade” –, são avaliadas em bilhões. Neste contexto, a agenda progressista tornou-se um passivo. Executivos como Bob Iger publicamente renunciaram a valores “woke” e desmantelaram programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), alinhando-se a uma ordem executiva de Trump que desmontou tais iniciativas no âmbito federal.

O resultado é uma reorientação sísmica na cultura popular. A morte de Robert Redford, ocorrida na mesma semana da suspensão de Kimmel, simbolizou o fim de uma era. Redford personificava uma Hollywood que se via como consciência progressista da nação, seja interpretando o jornalista investigativo em “Todos os Homens do Presidente” ou defendendo causas ambientais fora das telas. A indústria de hoje, porém, parece menos interessada em desafiar o poder do que em sobreviver a ele. A sobrevivência, por ora, exige alinhamento com a ideologia “Make America Great Again”.

Foto: Montagem sobre reprodução

Os paralelos históricos são perturbadores. A estratégia de Trump segue o manual clássico do bullying: identificar alvos vulneráveis, criar uma aura de inevitabilidade e explorar o medo. A Universidade de Columbia, que se curvou às exigências presidenciais, foi punida com uma multa de US$ 221 milhões e a destruição de seus programas de diversidade. A Associated Press foi banida do pool de imprensa da Casa Branca, substituída por veículos simpáticos ao MAGA, enquanto outras organizações de mídia permaneceram em silêncio. Cada instituição que cedeu não apenas se enfraqueceu, mas também piorou a situação para a próxima na linha de fogo, normalizando a rendição e encorajando novas exigências.

O caso Kimmel, no entanto, pode ter sido um passo longe demais. A reação foi intensa e veio de vários quadrantes. Centenas de pessoas protestaram em frente aos escritórios da Disney. Figuras proeminentes da indústria, como o ex-CEO Michael Eisner e o criador de “Andor”, Tony Gilroy, criticaram publicamente a empresa. Até mesmo alguns republicanos e influenciadores de direita consideraram a ameaça de Carr uma afronta à liberdade de expressão. A pressão forçou a Disney a reabrir negociações com Kimmel, que se recusa a pedir desculpas ou aceitar a censura. O impasse coloca Bob Iger em uma encruzilhada histórica: recolocar Kimmel no ar e desafiar abertamente Trump ou mantê-lo suspenso e alienar de vez a comunidade criativa que sustenta seu império.

O desfecho desta batalha em particular terá consequências que irão muito além da meia-noite na ABC. Ele testará os limites do poder presidencial sobre a mídia e a cultura. Revelará se o lucro a curto prazo e a aversão ao conflito são de fato a estratégia mais sábia para a sobrevivência corporativa no longo prazo. E, acima de tudo, definirá se os guardiões da cultura americana ainda possuem a coragem de seus antecessores – como Robert Redford – ou se a lógica do apaziguamento se tornou o novo e permanente script de Hollywood. A rendição pode parecer o caminho mais fácil, mas, como a história insistentemente nos lembra, regimes baseados no culto à personalidade são inerentemente frágeis. Sua maior vulnerabilidade é a resistência. E, pelo menos por enquanto, Jimmy Kimmel e os que protestam em seu nome representam um raro e crucial sinal de que nem todos estão dispostos a virar a página.

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