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O mundo que "A Rede Social" previu e o que ainda precisamos encarar

Redação Culturize-se

Quinze anos após sua estreia, “A Rede Social”, lançado em outubro de 2010 nos EUA, parece cada vez menos um drama corporativo e cada vez mais um documento histórico sobre a fundação do mundo digital contemporâneo. A parceria entre David Fincher e Aaron Sorkin, elogiada pela precisão formal e pela narrativa afiada, ofereceu já naquele ano um diagnóstico surpreendentemente precoce das contradições que moldariam a vida online: ambição desmedida, imaturidade emocional, poder concentrado em jovens bilionários e a distância entre conexão digital e vínculo humano.

Se o filme foi inicialmente visto como “o drama do Facebook”, hoje opera em um registro mais profundo, quase profético. Fincher e Sorkin captaram com rara clareza o impacto psicológico das redes sociais, ainda quando Instagram nascia e Snapchat nem existia. A solidão, a insegurança e a hostilidade que circulam pelas plataformas não eram temas de grande relevância em 2010, mas já atravessavam a trajetória de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), retratado como um jovem brilhante, arrogante e emocionalmente travado, incapaz de lidar com a rejeição e obcecado pelo próprio reflexo digital.

David Fincher, no canto direito da imagem, com seu elenco nos bastidores do filme | Foto: Divulgação

Essa ambivalência, poder monumental sustentado por fragilidades juvenis, tem sido um dos pilares da cultura tecnológica desde então. Não por acaso, “A Rede Social” dialoga com uma linhagem de épicos sobre o capitalismo americano, de “Cidadão Kane” a “Sangue Negro”, mas com protagonistas que ainda não sabem sequer como se vestir para comandar o mundo. A imaturidade como motor político e econômico é um dos acertos temáticos que tornam o filme atual.

Esse eixo se torna ainda mais relevante quando observado ao lado de “Mountainhead” (2025), sátira sombria de Jesse Armstrong. Se Fincher e Sorkin analisaram o nascimento dos bilionários da tecnologia, Armstrong observa o que eles se tornaram: magnatas enclausurados em chalés de vidro enquanto o mundo desmorona sob deep fakes, crises econômicas e manipulação algorítmica. O filme, protagonizado por Jason Schwartzman e Steve Carell, funciona como uma espécie de capítulo distorcido e inevitável da história iniciada em “A Rede Social”. Ali, jovens ambiciosos; aqui, adultos perigosamente poderosos. A ponte entre as obras é evidente, já que ambas entendem que o problema nunca foi apenas a tecnologia, mas quem , e como, a comanda

É nesse contexto que 2026 reserva “The Social Reckoning”, sequência escrita e dirigida por Sorkin. O novo filme, estrelado por Jeremy Strong como um Zuckerberg mais velho, acompanha a trajetória da engenheira Frances Haugen (Mikey Madison) e do jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White) ao expor segredos da Meta. Agora, o Facebook não é mais uma startup — é uma força geopolítica. Se o original retratava as rachaduras morais da juventude, a continuação deve investigar as responsabilidades e danos de uma gigante global.

Quinze anos depois, “A Rede Social” permanece relevante não porque antecipou o futuro, mas porque mostrou que ele já estava lá — apenas não queríamos enxergar. A continuação e o diálogo com filmes como “Mountainhead” reforçam que, se o cinema mudou, o objeto de crítica continua o mesmo: um mundo guiado por algoritmos, vaidades e bilionários que confundem poder com destino.

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