Por Reinaldo Glioche
O senador Sergio Moro irá se filiar na próxima semana ao Partido Liberal (PL), ninho da família Bolsonaro, para viabilizar sua candidatura ao governo do Estado do Paraná. Sua saída do União Brasil, partido que já ocupa, ainda que de forma canhestra, a base do governo Lula, se dá em um contexto de resistência da sigla e de suas alianças locais à candidatura do senador.
É, também, uma resposta do bolsonarismo ao plano de Ratinho Jr., governador do Paraná e prestes a ser anunciado pré-candidato à presidência pelo PSD, de não embarcar na chapa de Flávio Bolsonaro como vice.
Este é o cenário que tangencia descontentamento de muitos com o movimento de Moro, que deixou o governo Bolsonaro revelando as ações de Jair para proteger seu filho Flávio, pilhado em casos de rachadinhas, entre outros vis malfeitos. As insistentes interferências na independência da Polícia Federal levaram o então ministro da Justiça Sergio Moro a fazer públicas suas dissonâncias do bolsonarismo fisiológico. Suas críticas se alongaram ao presidente do partido que eventualmente acolheria Jair para a disputa pela reeleição em 2022, Valdemar Costa Neto. A quem, acertadamente, classificou como mensaleiro – em referência ao notório caso de corrupção sob Lula conhecido como Mensalão.

A migração de Moro para o PL tem menos a ver com fraqueza de caráter, um ativo contumaz dos homens públicos brasileiros, frequentemente ignorado pela sociedade, e mais com o fraturado sistema político-partidário brasileiro. O fisiologismo impera e prepondera, no caso de Moro, a disposição de antagonizar Lula. Foi assim quando ensaiou uma aproximação acanhada de Jair Bolsonaro na tentativa de impulsioná-lo à vitória no 2º turno de 2022 e é assim agora.
Moro tem sua agenda. É notadamente um político de postura e atuação independentes. É, também, perseguido pelo revanchismo lulista. Em meio a isso tudo, afigurou-se eminentemente como político; não mais um magistrado. Como tal, está à mercê das contradições que o jogo político pressupõe. É preciso maturidade institucional e convicção vocacional para navegar por essas águas turbulentas sob risco de desconectar-se de seus objetivos primários – e que o levaram a assumir, tanto por ego como por vocação, essa diferente faceta de homem público.
O desafio posto a Moro é, portanto, existencial. A contradição parece gravitacional. Um ruído em um plano maior. A mitose de Sergio Moro é concreta. A questão é se resultará em uma aneuploidia e gerará tumores ou se a multicelularidade será bem-sucedida. Em português, os fins hão de justificar os meios?