Redação Culturize-se
Na China, o arquiteto e urbanista Kongjian Yu vem se tornando uma referência mundial ao defender que a solução para as enchentes não está em combater a água, mas em aprender a conviver com ela. O conceito das chamadas “cidades-esponja”, que já inspira mais de 250 centros urbanos, nasceu de uma experiência pessoal: Yu quase morreu afogado na infância e, desde então, transformou o trauma em filosofia de vida e em estratégia de urbanismo.
De vilas rurais à metrópole global
Embora pareça inovador, o princípio é antigo. Povos rurais, há milhares de anos, aprenderam a usar a vegetação e pequenas estruturas de contenção para retardar o fluxo das chuvas. Yu apenas ampliou esse conhecimento para o contexto urbano, propondo a substituição da infraestrutura cinza — baseada em concreto, canais e muros — por infraestrutura verde e azul, que devolve espaço para rios, várzeas e áreas de drenagem natural.
“A água não é inimiga”, resume Yu. Para ele, não são represas e barragens que resolverão as enchentes nas cidades, mas parques, áreas verdes e sistemas porosos capazes de absorver o excesso de chuva como uma esponja.
Como funcionam as cidades-esponja
O conceito se aplica em diferentes escalas:
- Histórica: em vilas antigas, diques de mais de 700 anos mostram como pequenas intervenções reduzem a força do rio.
- Agrícola: Yu defende que 20% das fazendas sejam reservadas para áreas de infiltração, diminuindo a pressão da água que chega às cidades.
- Urbana: em Xangai, parques e praças foram projetados para se transformar em reservatórios temporários. Quando não chove, funcionam como espaços de lazer; quando chove demais, armazenam milhões de litros de água.
Exemplos pelo mundo
A China é o laboratório mais avançado desse modelo, mas a ideia já se espalha por outros países.
- Copenhague (Dinamarca): após enchentes devastadoras em 2011, a cidade criou praças que se transformam em bacias de retenção. O projeto St. Kjeld’s Square é hoje símbolo da resiliência urbana.
- Roterdã (Holanda): a cidade construiu praças que viram piscinas públicas em períodos secos e reservatórios de água em períodos de chuva intensa.
- Nova York (EUA): o programa “Cloudburst” prevê a adaptação de ruas, canteiros e campos esportivos para absorver até 220 milhões de galões de água da chuva.
- São Paulo (Brasil): ainda de forma tímida, a cidade implementa “piscinões verdes” no Parque Linear do Córrego do Bispo, que unem lazer e drenagem.
No Brasil, Yu chegou a sugerir intervenções no Rio de Janeiro, como a transformação da Avenida Francisco Bicalho, no centro, em um eixo permeável, com o dobro da área destinada à água. A medida reduziria enchentes e ainda valorizaria imóveis ao redor.

Uma filosofia de equilíbrio
A ideia das cidades-esponja vai além da engenharia. Para Yu, é uma visão de mundo ancorada na tradição chinesa e no conceito do chi, o sopro vital que precisa circular livremente. “Quando aprisionamos a água, adoecemos as cidades”, afirma. Em vez de ser tratada como ameaça, a água deve ser vista como organismo vivo, capaz de devolver vitalidade e equilíbrio às comunidades urbanas.
A inspiração vem também da vida rural de Yu: até os 17 anos, trabalhou como agricultor e aprendeu a lógica cíclica da natureza — a vaca come a grama, o esterco aduba o arroz, a vegetação filtra nutrientes e a água retorna limpa ao rio. “É um jeito sábio de usar a água”, resume.
A China apresenta hoje os projetos de Yu como vitrine global de inovação climática, mesmo sendo o país que mais emite carbono no mundo. Entre contradições, parques e praças concebidos por ele já recebem milhões de visitantes e mostram que urbanismo e sustentabilidade podem caminhar juntos.
O conceito de cidade-esponja, portanto, não é apenas uma solução técnica contra enchentes, mas um novo pacto urbano com a água — uma maneira de transformar o que era visto como risco em oportunidade de regeneração ambiental, cultural e social.
A mensagem de Yu é simples, mas poderosa: “Abrace a água. Deixe a água fluir.”