Redação Culturize-se
A indústria global do bem-estar passa por uma transformação estrutural. Mais do que oferecer conforto ou luxo, empresas de diferentes setores estão reformulando produtos e serviços para responder a um consumidor que valoriza saúde mental, sustentabilidade e sentido de propósito.
Esse movimento reflete uma mudança mais ampla no comportamento de consumo. Experiências, ambientes e escolhas de estilo de vida passaram a ser avaliados não apenas pelo preço ou pela conveniência, mas pelo impacto que têm na qualidade de vida e na percepção de bem-estar.
Os números mostram a dimensão dessa transformação. Segundo o Global Wellness Economy Monitor, o mercado global de bem-estar movimentou cerca de US$ 830 bilhões apenas no segmento de turismo em 2023. Já o turismo internacional como um todo superou 1,4 bilhão de chegadas em 2024, ultrapassando os níveis registrados antes da pandemia de Covid-19, de acordo com dados da Organização Mundial do Turismo.
Mas a retomada do setor não representa apenas um retorno ao padrão anterior. Para especialistas, ela sinaliza um novo tipo de viajante: alguém mais interessado em experiências com significado do que em consumo impulsivo.
“A viagem deixou de ser um evento isolado no calendário”, afirma a curadora de viagens Carmita Ribeiro, criadora do projeto Mala Vermelha pelo Mundo. Segundo ela, o deslocamento geográfico passou a representar também um movimento de autoconhecimento e reposicionamento pessoal.
Essa mudança aparece também em pesquisas de comportamento. O relatório Traveller Value Index 2024, da Expedia Group, indica que 76% dos viajantes priorizam experiências em vez de bens materiais; um dado que reflete a crescente valorização de vivências capazes de gerar memória e transformação.
Nesse cenário, cresce a procura por viagens planejadas com intenção clara, alinhadas ao momento de vida do viajante. O destino deixa de ser apenas um ponto turístico e passa a representar uma escolha coerente com valores pessoais, interesses culturais e objetivos de bem-estar.
Mulheres com maior autonomia financeira, por exemplo, têm liderado decisões de viagem focadas em qualidade, aprendizado e expansão de repertório cultural. Para especialistas, esse comportamento reforça a ideia de que viajar também se tornou uma forma de protagonismo e construção de identidade.
Uma nova lógica de consumo
A lógica do bem-estar, porém, não se limita ao turismo. Ela também está transformando setores tradicionais da economia, como o mercado imobiliário.
O chamado wellness real estate — imóveis projetados para promover saúde física e mental — tornou-se um dos segmentos de crescimento mais acelerado do mercado global de alto padrão. Avaliado em cerca de US$ 584 bilhões em 2024, o setor avançou para aproximadamente US$ 673 bilhões em 2025, segundo estimativas do Global Wellness Institute.
A expectativa é que o segmento ultrapasse US$ 770 bilhões em 2026 e alcance mais de US$ 1,1 trilhão até 2029. Esse crescimento está ligado à mudança de percepção sobre a moradia: cada vez mais compradores enxergam o espaço doméstico como parte de uma estratégia de saúde preventiva e longevidade.
Na prática, isso significa que edifícios e residências começam a incorporar soluções antes restritas a ambientes médicos ou corporativos. Sistemas de purificação do ar, iluminação circadiana — que respeita os ritmos biológicos do corpo — e isolamento acústico avançado passam a ser elementos valorizados no mercado imobiliário.

Essas características deram origem ao chamado “wellness premium”, conceito usado para definir o sobrepreço pago por imóveis que oferecem benefícios comprovados para a saúde dos moradores. Em alguns mercados, essas propriedades já alcançam valores entre 10% e 25% acima de empreendimentos tradicionais.
A América Latina tem se destacado nesse cenário. Dados recentes indicam que a região apresentou crescimento anual de cerca de 24% no segmento de wellness real estate, tornando-se uma das áreas de expansão mais rápidas do mundo.
O Brasil aparece como protagonista regional, impulsionado pela demanda em grandes centros urbanos. Em cidades densas e com altos níveis de poluição sonora e térmica, compradores procuram imóveis capazes de oferecer conforto ambiental, contato com áreas verdes e redução do estresse cotidiano.
Empreendimentos mais recentes já incorporam conceitos como neuroarquitetura e design biofílico, que utilizam elementos naturais — luz, vegetação e ventilação — para melhorar o bem-estar psicológico dos moradores.
Para especialistas, essa tendência reflete uma evolução do próprio conceito de luxo. Em vez de se limitar a materiais nobres ou localização privilegiada, o valor de um empreendimento passa a ser medido pela capacidade de melhorar a saúde e a qualidade de vida de quem vive nele.
Ao mesmo tempo, questões climáticas também influenciam essa transformação. Projetos imobiliários e turísticos começam a integrar estratégias de eficiência energética, redução de impacto ambiental e preservação de áreas naturais — fatores cada vez mais relevantes para consumidores atentos à sustentabilidade.
A convergência entre bem-estar, saúde e responsabilidade ambiental sugere que a chamada economia do wellness está entrando em uma nova fase. Mais madura e complexa, ela passa a envolver não apenas produtos e serviços, mas decisões estruturais sobre como viver, trabalhar e se deslocar.