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"The White Lotus" perde fôlego na 3ª temporada, mas não propriedade

Por Reinaldo Glioche

“The White Lotus” consolidou-se como uma série que satiriza com gosto e aspereza os ricos e a terceira temporada, a despeito do fogo baixo, não fugiu a essa regra. Mike White apresentou um punhado de novos personagens, mas a cota de cativantes foi menor do que nas duas temporadas anteriores, o que depôs contra o apelo da nova trama, apesar do hype exagerado nas redes sociais. Tampouco ajudou o desenvolvimento pedestre dos conflitos engendrados nos núcleos e entre eles.

O retorno de Belinda (Natasha Rothwell) só se justificou no último episódio com uma solução bem urdida que remete a uma das soluções mais doloridas da primeira temporada. O comentário sagaz, sobre a força corruptora que é o dinheiro, entretanto, parece muito pouco para um arco que se mostrou vagaroso demais. Por falar em lentidão, os conflitos desse 3º ciclo dispensavam oito episódios, o que adensou a sensação de “que nada acontecia” e, naturalmente, comprometeu o fluxo dramático de alguns personagens.

O único núcleo que passou inerte por esse derretimento narrativo foi o dos Ratiliffs, uma família sulista abastada que ficou pobre em virtude dos crimes de colarinho branco do patriarca, vivido com a contenção necessária por Jason Isaacs, cuja necessidade de fazer caras e bocas demandaria um ator sem botox. Só que filhos e mulher, vivida pela gloriosa Parkey Posey, que teve a graça de possuir as melhores one liners (frases de impacto) da temporada, não sabem de nada. As férias na Tailândia, portanto, representam uma espécie de limbo existencial entre o que eles foram e o que serão a partir da volta à realidade.

Leia também: Espiritualidade, vingança e mobilidade social pautam 3º ano de “The White Lotus”

O desfecho do núcleo, porém, foi o mais decepcionante da temporada. Onde se verificou que Mike White tem, afinal, algumas restrições (autocensura?) no manuseio de seus personagens. Talvez seja o carinho canhestro que nutre por eles. Só isso justifica o final shakespeariano de Rick (Walton Goggins) e Chelsea (Aimee Lou Wood). Como ela mesmo definiu em dado momento, ela era a esperança e ele, a dor. Eventualmente um mataria o outro. Embora ela falasse metaforicamente desse Ying Yang, os dois personagens morrem de forma trágica (e romântica) compondo um comentário sobre a inexorabilidade da vingança e ciclos cármicos dos quais não conseguimos escapar.

Curiosamente, embora tentasse desesperadamente “salvar” Rick, consumido por um trauma do passado, Chelsea acabou salvando Saxon (Patrick Schwarzenegger), um tipo frívolo que descobriu a espiritualidade e a capacidade de estabelecer conexões genuínas no convívio com ela. O personagem, aliás, foi aquele que teve o melhor pathos na trama – e o melhor desenvolvimento. Ajudou o fato do filho de Arnold Schwarzenegger ser realmente um bom ator. Ele desvencilhou-se da desconfiança generalizada de público e crítica e entregou uma atuação centrada, cheia de sutilezas e com um coração realmente aberto.

Por fim, temos o núcleo das três amigas que envolvia um punhado de ressentimentos, falsidades e rivalidade feminina. Aqui talvez tenhamos o desfecho mais surpreendente – e bonito – da temporada. Com um comentário delicado sobre ciclos, as contradições das amizades femininas e os elementos pesarosos da vida. O monólogo da personagem de Carrie Coon promete entrar para os anais da TV americana e, por tabela, ajudar a melhorar a percepção sobre o que foi essa terceira temporada de “The White Lotus”.  

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