Por Reinaldo Glioche
O cinema de Alexandros Avranas é daqueles que causa desconforto no espectador. O grego se notabiliza pela maneira fria com que articula seus filmes, embora demonstre capacidade ímpar de provocar reações contundentes de sua audiência – muitas das vezes rejeitando seus filmes. Em “Síndrome da Apatia”, para além da abordagem inusitada do drama dos refugiados, o incômodo reside mais no tema do que na estética. Mas Avranas mantém sua dialética, o que, mais uma vez, contribui para a potência de seu filme.
O longa aborda a condição conhecida como síndrome da resignação, uma forma de apatia profunda observada em crianças refugiadas na Suécia. A trama segue a história de Sergei e Natalia, um casal de professores russos que busca asilo na Suécia com suas duas filhas, Alina e Katja. Após a rejeição de seu pedido de asilo, Katja entra em um estado catatônico, levando a família a enfrentar desafios emocionais e burocráticos intensos.
O filme estreou no 81º Festival Internacional de Cinema de Veneza, recebendo críticas mistas. Alguns elogiaram a abordagem sóbria e a crítica ao sistema de asilo sueco, enquanto outros apontaram uma narrativa fria e distante. Ou seja, a recepção se enquadra no histórico de Avranas.
Por falar em enquadramento, as escolhas de câmera aqui reforçam a hostilidade enfrentada pelo par de protagonistas. O roteiro se incumbe de dar dimensão patológica ao profundo estresse que acomete a família, receosa de regressar à Rússia e enfrentar violência política. O alinhamento entre as atuações, que alternam entre o furor e o cálculo, e esse crescendo de tensão que o texto propõe fazem de “Síndrome da Apatia” uma experiência francamente perturbadora. É um filme, afinal, que pega o espectador pela jugular na expectativa de tirá-lo da catatonia. Nesse sentido é um filme de imenso valor social, este sim, um predicado inédito na filmografia de Avranas.
