Por Reinaldo Glioche
Quando o cinema de gênero e o cinema autoral se encontram é uma bela coisa de se ver. Quando essa sinergia se dá em um grande filme do sistema de estúdios hollywoodiano e a partir de uma ideia original, bem, estamos diante de um fenômeno incrivelmente raro. São elementos que adensam a força – e os efeitos – de “Pecadores”, novo filme de Ryan Coogler e o quarto de sua parceria com o ator Michael B. Jordan.
A ratificação da prolífera parceria com Jordan se dá em um filme que ostenta fluidez incomum para uma obra que navega por gêneros diversos. “Pecadores” tem drama familiar, humor e horror numa configuração ousada para abordar o racismo estrutural, mas o filme não pretender fazer denúncia ou fetichizar essa chaga social, mas falar de ancestralidade, música negra e resiliência no Mississipi dos anos 30.
Os vampiros, que surgem lá pelas tantas, são uma ameaça complementar “aos brancos que surgem no meio da noite” e adicionam o tesão à paleta de “Pecadores”, filmado em esplendoroso IMAX 70mm e Ultravision 70mm, o que permite uma experiência visual imersiva e impactante. Essa opção se justifica na cena mais comentada do longa, uma orgia musical que passeia por eras e permite uma trip sensorial que eleva o longa ao estado de graça.
Da trilha sonora de Ludwig Göransson ao elenco caprichado, tudo funciona em “Pecadores”, mas o que mais chama a atenção é a carga emocional impressa em cada fotograma. Coogler constrói um mundo frágil, cheio de vulnerabilidades, ressentimentos, fé, violência, desejo e música e esculpe seus personagens com afeto – dos desassistidos aos amaldiçoados – o que torna o ato final, a parte mais empolgante do longa, algo realmente ressonante na audiência.
É um filme, portanto, de diretor. De um realizador que não abre mão de sua veia autoral mesmo em projetos que, a priori, são concebidos para multiplexes. É esse o grande predicado de “Pecadores”, que talvez se materialize como o primeiro fenômeno do cinema americano pós-Barbenheimer.

